Mesmo em escolas com estrutura precária, estudantes da rede estadual têm êxito no ENEM

Escrito por Luana Capistrano Ligado .

Diferente do que colocou o Ministro da Educação, do Governo de Jair Bolsonaro, Ricardo Vélez Rodríguez, a universidade não deve ser somente para uma “elite intelectual”, a universidade deve ser um espaço público, gratuito, de acesso a todos e todas, que fomente a troca de saberes através do ensino, pesquisa e extensão. A universidade deve e vai ser pintada de povo, e, goste o senhor Ministro ou não, as filhas e filhos dos trabalhadores vão virar doutoras e doutores.

O estudante Christian Wallace Santos Menezes, do Colégio Estadual Almirante Tamandaré, em Nossa Senhora de Lourdes, 1º lugar em Medicina, na UFS

 

Colégio Estadual Almirante Tamandaré, Nossa Senhora de Lourdes, sertão sergipano, janeiro de 2019, o estudante do 3º ano do ensino médio, Christian Wallace Santos Menezes (foto acima), é aprovado, em 1º lugar, no curso de Medicina, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), na categoria cotas para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escola pública, com renda familiar bruta de até 1,5 salário mínimo.

Outras três estudantes do Almirante Tamandaré também foram aprovadas na UFS, em colocações de encher de orgulho. Maria Luísa Nascimento Oliveira, 1º lugar, no curso de Nutrição. Selana Santos, 2º lugar, no curso de Astronomia. Ingrid Damaris, 7º lugar, no curso de Enfermagem. Além de uma aprovação em ciências da computação.

Colégio Estadual Cicero Bezerra, em Nossa Senhora da Glória, também no sertão de Sergipe, 58 estudantes aprovados em diversos cursos da Universidade Federal de Sergipe, obtendo três primeiros lugares nos curso de geografia, física e fisioterapia, com os estudantes Letícia de Jesus Melo, Victor Fellipe Celestino Santos e Laura Melo Andrade, respectivamente.  

Colégio Estadual Gumercindo Bessa, localizado em Estância, na região sul do estado, seis estudantes aprovados na UFS e um no Instituto Federal de Sergipe (IFS), nos cursos de pedagogia (Paulo Vinícius da Silva Matos – 7º lugar, UFS); engenharia civil (Adriano Amaral – 4º lugar, IFS); engenharia eletrônica (Anthonyel de Souza Leão Matos – 11º lugar, UFS); Serviço Social ( João Vitor Santos Carvalho – 25º lugar , UFS); Educação Física licenciatura (Tawana Passo Ferreira, UFS); Engenharia Agrícola (Rogério Silva de Jesus Júnior – 6º lugar, UFS) e história licenciatura (Milene Santos Macedo – 7º lugar, UFS).

Todos os três colégios estão localizadas no interior de Sergipe, atendem a demanda do ensino regular, ou seja, não são unidades de Ensino Médio de tempo integral, e através de um trabalho pedagógico comprometido, conseguiram fazer com que seus estudantes acreditassem no sonho e conseguissem conquistar a vitória.

Estas três unidades de ensino são apenas uma pequena mostra do trabalho competente de professores e professoras da rede estadual, que mesmo trabalhando em condições precárias, em espaços que pouco facilitam o processo de ensino e aprendizagem e sofrendo com anos de destruição e desvalorização de suas carreiras, ainda conseguem ser suporte, ser esteio e mudar o futuro de centenas de jovens sergipanos.  

O número de estudantes de colégios da rede estadual aprovados na UFS, IFS e em outras instituições de ensino públicas só cresce, e pode ser ainda maior depois da segunda chamada do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), para a ocupação de vagas excedentes. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Educação, Esporte e Cultura (Seduc) até agora mais de 1200 estudantes (matriculados nas unidades de ensino da rede estadual e no Curso Pré-Universitário da Seduc) foram aprovados na primeira chamada do Sisu.

Corrida injusta

Para os estudantes das unidades de ensino da rede estadual de educação de Sergipe, conseguir a aprovação em uma instituição de ensino superior pública não é uma missão fácil, muito pelo contrário, estes jovens enfrentaram adversidades desanimadoras, que estão presentes na esmagadora maioria das escolas da rede estadual de nosso estado. E na ‘corrida’ por uma vaga estes meninos e meninas ‘largam’ muito atrás de seus outros concorrentes.

Salas de aula, que ficam conhecidas como ‘saunas de aula’ de tão quente que são, alimentação escolar irregular e de baixa qualidade, falta de materiais didáticos para os professores trabalharem, banheiros fétidos, falta de laboratórios, entre outras situações precárias e escandalosas, que se acumularam ao logo de anos de descaso por parte do Governo do Estado com a educação dos filhos e filhas dos trabalhadores de Sergipe.

Aqui o tão enaltecido discurso meritocrático cai por terra. “É como se você fosse participar de uma corrida e lhe dissessem que você só pode largar 30 minutos depois dos demais concorrentes. Claro que as políticas afirmativas, a exemplo do sistema de cotas, criado pelo governo Lula, são fundamentais no tocante ao acesso dos nossos estudantes da rede pública a uma instituição de nível superior. Mas também não nos resta dúvida que os resultados dos estudantes da rede estadual de Sergipe poderiam ser ainda melhores se as nossas escolas oferecessem uma estrutura adequada, digna. É muito fácil enaltecer o mérito quando se larga 30 minutos antes” analisa a presidenta do SINTESE, professora Ivonete Cruz.  

A realidade da rede estadual de ensino

Os estudantes do Colégio Estadual Almirante Tamandaré enfrentaram as altas temperaturas do sertão sergipano com ventiladores das salas de aula quebrados. Chegaram a ser instalados ar-condicionados nas salas, mas os mesmo não funcionavam. A alimentação escolar na unidade de ensino também não é oferecida de forma regular.

Os professores e professoras do Colégio Estadual Almirante Tamandaré tiveram sérios problemas devido à falta de materiais didáticos. Em 2018 nem o mais básico foi garantido, para ter ideia, não havia sequer pilotos para escrever no quadro branco, a solução foi voltar a usar a lousa de giz.

E com todos estes problemas sérios, estudantes, professores, pais, mães e funcionários do Colégio ainda tiveram que enfrentar as investidas da Secretaria de Estado da Educação – SEED (atualmente Secretaria de Estado da Educação, Esporte e Cultura- Seduc) que queria, de forma autoritária, transformar a unidade de ensino em Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral.

A comunidade escolar do Colégio Estadual Almirante Tamandaré lutou e fez valer sua vontade, mantendo o ensino regular na unidade, que atualmente atente a estudantes, do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano de ensino médio. O colégio funciona nos três turnos: manhã, tarde e noite.

Problemas similares

No Colégio Estadual Cícero Bezerra a situação não é diferente. Estudantes e professores também enfrentam o calor nas salas de aula, a alimentação escolar de baixa qualidade e a falta de estrutura.

Mesmo assim, o Cícero Bezerra anualmente tem um grande número de estudantes aprovados em instituições de ensino superior públicas e particulares. No ano de 2018 mais de 160 estudantes oriundos da unidade de ensino ingressaram no ensino superior. Para o professor de geografia, José Otomes, os resultados obtidos pelo Colégio são fruto do esforço de todos aqueles que compõem a unidade de ensino.

“Mesmo diante da escassez de recursos, da deficiência de infraestrutura e da falta de pessoal, nossa escola, assim como muitas outras da rede estadual, tem mostrado seu valor e que somos capazes de proporcionar aos filhos dos trabalhadores a possibilidade de sonhar e alcançar seus objetivos. O resultado é fruto do continuo esforço de toda a escola e de toda nossa comunidade escolar. Esta lista de aprovados é apenas o começo. Acreditamos que este será mais um ano de sucesso e aprovação de nossos alunos”, coloca o professor.

A realidade do Colégio Estadual Gumercindo Bessa não se afasta das outras duas unidades de ensino. Na maioria das salas de aula os ventiladores estão quebrados, alimentação escolar irregular e apensa o básico de materiais didáticos.

“Neste micro-universo de três escolas da rede estadual, conseguimos representar o macro, elas representam o triste retrato da maioria de nossas unidades de ensino. O sentimento que temos é que para a Secretaria de Estado da Educação, Esporte e Cultura os nossos estudantes só são importantes se os mesmos conseguirem ser aprovados no ENEM, de preferência em cursos tradicionais, para servirem de propaganda para a gestão de educação do nosso estado. Porque no dia a dia aos filhos e filhas de trabalhadores são relegadas escolas em péssimo estado de conservação, com banheiros fétidos, sem laboratórios, sem material didático, sem alimentação de qualidade, sem dignidade. Cabendo a nós, professores, o papel de lembrar e dizer a nossos estudantes “sim, você pode!”, “sim, você consegue!”. E mesmo que a realidade que nos cerca dentro de nossas escolas da rede estadual pareça dizer a nossos estudantes o contrário, somo nós que estamos lá para dizer a eles “sim, nós acreditamos em você!”. Para nós, nossos estudantes não são apenas números”, afirma a diretora do departamento de base estadual do SINTESE, professora Leila Moraes.