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Boquim: Comunidade escolar do Cleonice Soares Fonseca vai às ruas e diz não a Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral

Escrito por Luana Capistrano Ligado . Publicado em Rede Estadual

Estudantes, professores e funcionários do Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca, em Boquim, foram às ruas na manhã desta quarta-feira, 18, para dizer não ao modelo excludente de ensino médio em tempo integral imposto pela Secretaria de Estado da Educação (SEED), por meio da transformação da unidade de ensino em Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral.

A comunidade escolar acusa a SEED de agir de forma vertical e autoritária, sem travar amplo debate e muito menos escutar a opinião dos maiores interessados no assunto: estudantes, pais, professores e funcionários.

“Não fomos consultados. Nosso colégio não tem condições estruturais de nos receber um dia inteiro. Queremos o ensino em tempo integral, mas não neste modelo da Secretaria de Estado da Educação que exclui e que não nos assegura dignidade. Queremos dignidade”, coloca a estudante do 1º ano de ensino médio, Emily Souza.

Como a maior parte das unidades de ensino da rede estadual, nas quais a SEED tem imposto a implantação do Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral, o Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca não possui estrutura física adequada para receber jovens diariamente durante um dia inteiro.

Os banheiros da unidade de ensino estão em péssimo estado, não há local para banho. Os laboratórios existem fisicamente, mas dentro deles não há equipamentos. Em tempo de chuva a quadra esportiva não pode ser usada, pois a mesma alaga. A quadra também não possui arquibancada. A alimentação escolar é irregular e de acordo com os estudantes, o cardápio exposto nunca é cumprido.

“Estamos cansados de comer macarrão com ovo. Imagina se ficássemos o dia todo no colégio somente com isso? Além da alimentação que é muito ruim, nosso colégio não tem como ser de tempo integral porque não possui condições materiais para isso. Não temos banheiros descentes, não temos laboratórios, não temos um espaço para descanso. Não dá nem para imaginar como seria ficar o dia inteiro nesse colégio. Não tem condições”, afirma a estudantes do 2º ano do ensino médio, Larissa Rodrigues.

Reunião para poucos e história floreadas

Relatos de estudantes e professores do Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca apontam que representantes da Secretaria de Estado da Educação estiveram na unidade de ensino e se reuniram apenas com alguns pais de estudantes matriculados no 9º ano do ensino fundamental.

Nesta reunião os representantes da SEED apresentaram parcialmente a Portaria nº 727/2017, do Ministério da Educação, que estabelece novas diretrizes, novos parâmetros e critérios para o Programa de Fomento às Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (EMTI). Além de apresentar também uma realidade completamente floreada do que são e como são as unidades de ensino da rede estadual onde hoje funcionam os Centros Experimentais de Ensino Médio em Tempo Integral

Os membros da SEED “esqueceram” de informar àquele pequeno grupo de pais e mães presentes na reunião, que a Portaria 727 é clara ao determinar o fechamento do ensino fundamental e do ensino noturno. “Esqueceram” de comentar que boa parte dos estudantes que moram em povoados também serão excluídos porque a Portaria 727 diz que a unidade de ensino atenderá apenas estudantes que moram em sua proximidade. “Esqueceram” de dizer também que será excluída parte do corpo de professores da unidade de ensino. “Esqueceram” de falar que os estudantes passarão o dia inteiro em um Colégio sem a menor estrutura para recebê-los: não há vestiários, não há refeitório, não há laboratório, não há alimentação de qualidade.

Após deixar tantos “detalhes” de lado e contar apenas histórias belas, os membros da SEED conseguiram convencer aquele número reduzido de pais e alguns membros do Conselho escolar, que transforma o Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca em Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral seria um excelente ‘negócio’. Vale ressaltar que o Conselho Escolar tinha sido recentemente eleito e neste processo nem todos os membros foram consultados.

Mobilização da comunidade escolar

Ao serem surpreendidos com a notícia de que o Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca seria transformado em Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral, a parir de 2018, a comunidade se mobilizou. Foi chamada uma reunião com todos os seus seguimentos: estudantes, professores, pais, mães e funcionários.

A comunidade escolar se informou sobre o que realmente dizia a Portaria nº 727/2017, do Ministério da Educação; analisaram o atual cenário do Colégio e qual sua real condição de receber estudantes e professores de forma integral, e a partir de um amplo debate conseguiram visualizar conjuntamente o quão excludente é o modelo de ensino médio integral que a SEED quer impor aos Colégios da rede estadual.

A partir desta construção coletiva a comunidade escolar do Colégio Estadual Cleonice Soares Fonseca se colocou contra a o modelo excludente de ensino médio em tempo integral imposto pelo SEED. O Conselho Escolar voltou atrás e redigiu documento no qual também se coloca contrario a transformação da unidade de ensino em Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral.

“Toda esta mobilização e união culminou no ato desta quarta-feira, que foi idealizado pelos estudantes do Cleonice Soares Fonseca. O intuito aqui foi dialogar com a população de Boquim e mostrar que mesmo a SEED utilizando-se de artifícios baixos, tentando enganar parte da comunidade escolar, tentado impor a qualquer custo o Centro Experimental de Ensino Médio em Tempo Integral, não ficaremos parados e não vamos aceitar. Não somos contrários ao ensino em tempo integral, inclusive esta é uma luta do magistério. O que somos contra é a o modelo excludente, que visa confinar jovens em escolas sem qualquer estrutura e que não oferecem condições dignas para assegurar o processo de ensino e aprendizagem. Somos contra a SEED de ludibriar Comunidades escolares em todo o estado e  somos contra a política truculência que Jackson Barreto e que o Secretário da Educação, Jorge Carvalho, vêm aplicando na educação”, pontua o coordenador da subsede do SINTESE na região Centro Sul, professor José de Jesus.