Imprimir

As incoerências da vida pública

Escrito por Professora Ana Araújo Gois Ligado . Publicado em Redes Municipais

Professora Ana Araújo GoisProfessora Ana Araújo Gois

 

Por Ana Araújo Gois

 

Ontem sem querer, ouvir algumas afirmações do prefeito de Moita Bonita e qual foi minha surpresa diante de algumas de suas falas. Uma delas é que o município paga todos os meses cerca de R$ 2.500,00 ao SINTESE.

Claro que o município não paga nenhum centavo, apenas faz o repasse daquilo que é descontado em nossos contracheques, dinheiro q é dos professores e não do município (primeira inverdade); existe no município professores com salário de R$ 7.000,00 reais, se existir, não está lotado nas escolas nas salas de aula, falo com convicção pois temos uma carreira e sou uma das mais antigas na rede, com graduação e pós, orgulhosamente com 36 anos de serviços prestados e meu salário está muito, muito longe desse valor. Outra inverdade, que o município é um dos que paga os melhores salários aos professores.

Muito cômodo usar uma emissora de rádio onde o acesso é restrito, com perguntas tendenciosas direcionadas pelo repórter pra falar o que convém. Dizer que o sindicato é organizado porque tem dinheiro é um elogio para a entidade. Falar que paga para o sindicato é uma incoerência. Falar que professores são bem pagos, a meu ver, mostra o quanto os gestores públicos desvalorizam a categoria e a educação.

Claro, normal é professor ganhar salário mínimo, porque professores geralmente são oriundos das classes mais humildes, então devem se conformar com as migalhas. Anormal é um professor ter um salário igual ao de qualquer outro profissional de nível superior, é professor andar de carro, viajar, frequentar shoppings, sim, porque qualquer outro trabalhador deve ter esse direito, é normal, já professor, se fizer isso, é por que já está rico. Quando recebíamos metade do salário mínimo era normal, enquanto todos os demais servidores recebiam o mínimo e dois, três, quatro, dez salários isso era normal.

Esqueceram que a lei do piso foi criada para valorizar os professores? Esqueceram que o conhecimento é o alicerce para o desenvolvimento? Se este fosse um país sério, tais comentários não seriam proferidos por nenhum gestor. Infelizmente nosso país sofre de uma doença chamada ignorância, miséria, alienação, frutos de uma história vergonhosa que vivemos desde o período colonial com a escravidão, perpassando pelo coronelismo moderno, pela república do café com leite, pela censura e ditadura. A crítica aos sindicatos não é novidade.

Sempre foi assim, todas as vezes que o povo se organizou para lutar por justiça e igualdade no Brasil e no mundo, seus líderes foram presos, perseguidos, exilados e ou mortos, com raríssimas exceções, vejamos alguns exemplos: Nelson Mandela, Marthin Luther King, Tiradentes, os líderes da Balaiada, Cabanagem, Sabinada, Guerra dos Farrapos, Revolução Pernambucana. Hoje a história é a mesma. 
Os meios de comunicação pertencem a elite dominante, os microfones só se abrem para o que interessa ao grande capital. A mídia manipula a massa e a verdade nem sempre é respeitada. A justiça é injusta, a lei existe para punir os fracos e proteger os fortes.

Sou professora, não comprei diploma, não usurpei a capacidade ideológica de nenhum aluno, não deixei de cumprir minhas obrigações de professora durante esses 36 anos em sequer um dia. Mas tenho consciência, se o Brasil vai mal, a causa da doença é a irresponsabilidade e a falta de compromisso da maioria daqueles que se elegem propagando-se representantes do povo apenas na falácia. O Brasil, um país continental, com riqueza imensurável em todos os aspectos, com um povo extremamente trabalhador, porém à maioria sobram as migalhas de um imenso bolo que alimenta 1% dos brasileiros. E querem calar-nos? Querem que acreditemos e nos conformemos com a situação? Sou brasileira e não desisto nunca!

Educação é investimento e não despesa. O conhecimento é o principal instrumento de transformação. É o caminho para a autonomia cidadã, coisa que amedronta a quem defende a mordaça e a subserviência.

Ana Araújo Gois é professora da rede municipal de Moita Bonita