Imprimir

Crianças negras estão entre as principais vítimas de bullying

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Especiais: consciência negra

O preconceito e a discriminação muitas vezes resultam em situações em que pessoas são humilhadas, agredidas e acusadas injustamente simplesmente pelo fato de fazerem parte de algum grupo social específico. A afirmação é de uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (Fipe) que publicou em junho, em parceria com o Inep, um estudo sobre preconceito e discriminação no ambiente escolar (acesse aqui). De acordo com a pesquisa, as práticas discriminatórias têm como principais vítimas os alunos, especialmente negros, pobres e homossexuais, com médias de 19%, 18% e 17% respectivamente para o índice percentual de conhecimento de situações de bullying nas escolas. Sobre o tema, o Observatório da Educação entrevistou a professora Marilene Leal Paré, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela pesquisa, dentre outras temáticas, o racismo em sala de aula.

Observatório da Educação - Pesquisa da Fipe/Inep apontou a criança negra como principal vítima do bullying. O que aponta sua pesquisa? Como a violência contra a criança negra aparece no cotidiano escolar?

Marilene Leal Paré
– Minha pesquisa de mestrado foi feita em três escolas públicas, uma federal e duas estaduais. Fiz entrevistas com alunos negros dessas escolas, com metodologia fenomenológica. Detectei algumas essências dessas entrevistas. A primeira, e que aparecia em 100% das entrevistas, era a questão da discriminação racial na escola. Ela acontece das mais diferentes formas, como a verbal, com apelidos como “macaco”, que vem de muito tempo, mas continua sendo utilizado, tanto por colegas quanto por professores. A pergunta era como a pessoa se sente como aluno negro na escola, ou seja, o sentimento ligado à relação humana na escola, com colegas e professores.

OE – A aplicação da Lei 10.639 teve algum impacto? Está acompanhando a aplicação da lei no RS?

Marilene
– No semestre passado, a Faculdade de Educação da UFRGS me pediu para criar a disciplina questões etnicorraciais na educação – sociologia e história, para a pedagogia à distância, vinculada a quatro regiões da grande Porto Alegre, para professores de séries iniciais que não têm a graduação. A disciplina teve enfoque no afrodescendente e no indígena. Trazíamos a abordagem da lei, de como ela estava sendo trabalhada por esses professores. O número era muito pequeno de professores que trabalhavam algo relacionado a essa questão. Algumas poucas escolas tinham algo no currículo, mas a maioria não tinha nada, nem sabia de nada. Isso porque não há formação. As universidades não dão essa formação para os professores. É preciso ter muitos cursos de extensão, de formação, porque os professores devem voltar para a universidade para estudar esse conteúdo ligado à lei, ou seja, a história da África, do afro-brasileiro, da arte, da literatura, contos negros, fábulas africanas, que professores desconhecem. Agora já existe uma bibliografia grande, mas as escolas em geral não trabalham isso.

Tivemos alguns impasses na disciplina. Vários professores se recusaram a fazer a entrevista com seu aluno negro, pois achavam que isso era racismo ao contrário. Tivemos impasse grande com grupos de professores que se negavam a fazer trabalhos, em função justamente desse preconceito incrustado que existe e que se utiliza de uma série de mecanismos para não fazer. Na minha região, de origem alemã e italiana, não tem negro. Mas por não ter a pessoa não vai estudar? Mais de 50% da população brasileira é afrodescendente, e não vai estudar isso?

OE – Em relação à formação inicial nas faculdades houve alguma modificação?

Marilene
– Não tem nada. São raras as que têm. Temos uma universidade privada, a Faculdade Porto-Alegrense, que tem um curso de história de extrema qualidade com relação à questão africana e à da afrodescendência. O grupo das ciências sociais, no geral, são os que pesquisam mais, e em algumas disciplinas até trabalham com os alunos. Mas não é instituído, não está no currículo. Depende do professor.

OE – Quanto ao plano de implementação da lei 10.639. Há algum trabalho relacionado ao plano no RS?  

Marilene
– Tem havido encontros, fóruns, ligados ao plano. Há projeto de implementação, mas há essas barreiras que te disse. Na hora de pôr em ação, o pessoal que está lá e discute nos fóruns é quem está, há muitos anos, trabalhando com a questão. Mas quando chega na escola há alguns impedimentos das pessoas que fazem a educação. Tem muito trabalho pela frente, embora estejamos trabalhando no movimento negro há muitos anos. Ainda há muito a ser feito, principalmente a relação humana, o aceitar o diferente, o outro. Isso não é tão fácil de ser modificado. Com a lei, pelo menos ficou formalizado, pelo menos temos uma lei para nos apoiar. Mas que seja efetivada, é uma política pública que nos favorece bastante.

 

fonte: http://www.observatoriodaeducacao.org.br/