Vida & obra de um autor defunto e de um defunto autor

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Sociedade

Luiz Ricardo Leitão

Quando lecionei Literatura Brasileira na Universidad de La Habana (1999-2002), impressionou-me o respeito e a admiração que o meio acadêmico de Cuba dedica a Machado de Assis. Na entrada da imponente Biblioteca Nacional José Martí, situada em frente à famosa Plaza de Revolución, logo pude perceber que o romancista carioca era o único brasileiro na lista dos mais notáveis homens de letras da América Latina cujos nomes se inscrevem em letras douradas entre as colunas do solene pórtico de acesso à instituição. Também me surpreendeu saber que a obra de abertura da Colección Latinoamericana da Casa de las Américas é um romance de Machado datado de 1881 que revolucionou a narrativa de ficção do século XIX: Memórias póstumas de Brás Cubas. Aliás, outra notável coleção sul-americana, a Biblioteca Ayacucho da Venezuela, que possui títulos dedicados a José Martí, Juan Rulfo, Pablo Neruda e Ruben Darío, entre outros, não apenas o relacionou entre os raros escritores brasileiros por ela editados, como ainda fez questão de publicar dois títulos do autor: um volume completo de Contos e o magnífico romance Quincas Borba.


O destaque conferido por nossos generosos vizinhos hispano-americanos a este mestiço brasileiro cujo centenário de falecimento ocorre em 2008 instou-me a reler e reavaliar a produção literária do escritor, a fim de que me fosse possível esclarecer por que o autor despertou — e continua a despertar — tamanha admiração entre a crítica, o público e seus próprios pares. E a conclusão preliminar a que cheguei é a de que, muito além do apuro formal e da precisão de sua linguagem, o mérito maior do criador de Brás Cubas foi descrever-nos como poucos a prepotência e o cinismo das classes dominantes deste país, a quem ele flagrou em um momento especialíssimo de rearranjo político e institucional, ou seja, na passagem do Império para a República.

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