Desemprego atinge mais de um milhão de jovens na Inglaterra

Escrito por Marcelo Justo - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

A crise econômica está golpeando com força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil secundária desapareceu. O artigo é de Marcelo Justo.

“Eu tive 20 anos e não permitirei que digam que é a idade mais linda da vida”. A famosa frase de Paul Nizan tem mais peso do que nunca na Europa atual e não por razões existenciais.

A crise econômica está golpeando com particular força os jovens. No Reino Unido, o desemprego juvenil superou a barreira psicológica do milhão de pessoas e ninguém parece ter esperança de que as coisas melhorem neste 2012. Uns porque nunca tiveram expectativa de outra coisa, outros porque as portas abertas estão fechando e não há maneira de abri-las: este ano a matrícula universitária custará uns 16 mil dólares e a ajuda estudantil secundária desapareceu. Neste cenário, não surpreende que os estudantes estejam engrossando as filas da prostituição para financiar uma carreira que melhore, sem oferecer garantias, sua perspectiva de trabalho.

Em uma tentativa de capturar e transmitir a gravidade da crise, a ONG Barbados, que defende os direitos dos menores, chamou os jovens de “futuros pobres”. Em alguns casos, o futuro não é mais que a continuação do passado: levam a pobreza inscrita desde o nascimento. Nos bairros londrinos de Tottenham, Lewisham, Hackney, nos bolsões pobres das grandes cidades, em Manchester e Liverpool, Birmingham e Newcastle, há muito que se abandonou toda esperança. Durante a onda de saques que sacudiram o Reino Unido em agosto, cerca de 80% dos saqueadores presos tinha menos de 25 anos.

Em sua mensagem de ano novo, anunciada neste domingo, a máxima autoridade da Igreja Anglicana, o arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, exortou os britânicos a não demonizar os jovens. Pediu aos britânicos que abandonem a hostilidade para com os jovens. “É uma tragédia que existam saques quando podemos ver o que se pode conseguir com esses jovens quando essa energia é canalizada positivamente em um contexto de segurança e amor”, assinalou o Arcebispo. Mas como advertiu David Lammy, deputado trabalhista por Tottenham, o bairro onde iniciaram os incidentes, não há uma consciência social ou política sobre a gravidade e urgência do tema. “Precisamos de políticos de todos os partidos que atendam estes problemas ou os saques podem voltar a acontecer”, vaticina Lammy.

E não há sinais de que o governo esteja escutando. A primeira reação aos distúrbios foi desclassificá-los como mero vandalismo juvenil de gangues descontroladas. O primeiro ministro David Cameron suavizou um pouco suas próprias palavras falando da desintegração moral da sociedade e prometendo uma investigação dos fatos, mas a política socioeconômica do governo não variou um centímetro.

Em seu comparecimento ante o Parlamento, em outubro, o ministro de Finanças, George Osborne, reafirmou o plano de austeridade do governo que contempla uma redução de 140 bilhões de dólares no orçamento do período 2011-2015. Os programas juvenis, dizimados pelos cortes, não receberam nenhuma nova fonte de financiamento. O bairro de Tottenham é um claro exemplo do abismo social que existe em um dos países mais ricos do planeta.

É a zona com maior desemprego de Londres e uma das 10 mais pobres do Reino Unido: os clubes da juventude desapareceram logo depois de o orçamento municipal ter sofrido um corte de 75%.

Economia sem rumo

A aposta da coalizão conservadora-liberal democrata é que o setor privado compensará o draconiano encolhimento do Estado. Até aqui, essa aposta não deu resultado. Entre julho e setembro de 2011, cerca de 67 mil pessoas perderam seu emprego estatal: o setor privado só criou 5 mil novos postos. Segundo o prestigiado Chartered Institute of Personnel and Development, essa situação piorará este ano com a demissão de cerca de 120 mil servidores públicos. Charlotte Foster, uma menina de 21 anos que terminou o ano passado a universidade, resumiu ao Daily Telegraph sua falta de expectativas. “No melhor dos casos passarei de um emprego temporal a outro. Com tantas demissões vai ser muito difícil. Há gente com 10 anos de experiência no mercado buscando trabalho”, declarou ao jornal.

Se a estratégia da coalizão para o conjunto da sociedade faz água, para os jovens ela naufragou em meio ao nada. Uma das medidas de austeridade da coalizão que mais os afetaram foi a triplicação do valor das matrículas universitárias, que entra em vigor este ano, e a eliminação da ajuda a estudantes secundário. As massivas manifestações entre outubro de 2010 e março do ano passado tiraram os jovens da situação de letargia política das últimas duas décadas, mas não conseguiram evitar a reforma da lei da educação.

Com custos subindo às nuvens e sem acesso a empregos temporários, muitos estudantes estão recorrendo a variadas formas de prostituição. “Com todos os cortes que ocorreram, muitas estudantes se prostituem para escapar da pobreza. Com esse tipo de trabalho, é possível, em uma noite, cobrir mais ou menos os gastos da semana”, assinala Sarah Walker, de um grupo de defesa dos trabalhadores do sexo, o English Colective of Prostitutes (ECPL).

Um estudo da Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, revelou que cerca de 25% das “strippers” e “lap-dancers” da capital eram estudantes. Outra investigação da Universidade de Londres mostrou que 16% das universitárias estavam dispostas a se prostituir para pagar seus estudos e cerca de 11% contemplava a possibilidade de trabalhar em agências de acompanhantes. “A maioria são estudantes que acabam de iniciar a universidade ou estudantes adultos que querem um título. O governo sabe que o trabalho sexual é uma maneira de escapar dessa situação, mas isso não parece importar muito”, assinala Walker.

Em meio ao desalento, a União de Estudantes se comprometeu a continuar com os protestos para mudar a política universitária da coalizão. Em novembro, quase um ano depois de o parlamento aprovar a triplicação do valor das matrículas, milhares de estudantes se manifestaram por uma mudança de política. A maioria não estava diretamente afetada pela medida que só entrará em vigor para a camada que ingressa na universidade em setembro deste ano. 2012 promete ser um ano movimentado.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Agora, a Itália

Escrito por Arnaud Parienty - http://www.revistaforum.com.br Ligado . Publicado em Mundo

Enquanto a Alemanha continuar prisioneira do dogma absurdo que proíbe o BCE de emprestar dinheiro aos Estados, a crise vai continuar. Para além do psico-drama grego, esta crise está centrada na Itália.


Uma vez dissipada a cortina de fumaça mediática, todos percebem que não houve acordo na cúpula europeia de 26 de outubro: Ninguém sabe como será alimentado o FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), nem quais serão as suas missões. Ora, enquanto a Alemanha continuar prisioneira do dogma absurdo que proíbe o BCE (Banco Central Europeu) de emprestar dinheiro aos Estados, a crise vai continuar. Para além do psico-drama grego, esta crise está centrada na Itália.

O objetivo essencial da “cúpula” europeia era criar um mecanismo de empréstimo à Itália, de forma a limitar a especulação sobre a dívida italiana. A “cúpula” falhou dramaticamente. Por isso, agora é sobre a Itália que a crise se vai desenvolver, e durante bastante tempo, sem dúvida. Esta situação pode parecer surpreendente, na medida em que a Itália tem finanças públicas quase equilibradas e está longe da situação de especulação que desequilibrou os bancos de outros países. Contudo, a situação deste país é preocupante. Ela ilustra perfeitamente o atual impasse europeu.

A armadilha da dívida

Suponhamos um Estado em equilíbrio, que para pagar aos funcionários, os apoios sociais e os investimentos públicos não gasta mais do que cobra em impostos. O saldo primário do orçamento, isto é, sem o pagamento do serviço da dívida, é nulo. Mas apesar disso a sua situação é deficitária, devido ao serviço da dívida (pagamento dos juros e reembolso de uma parte do capital). Este déficit vai aumentar a dívida. Mas a taxa de endividamento (dívida/PIB) depende também do denominador: se o PIB aumentar mais do que a dívida, a taxa de endividamento diminui.

Como primeiro passo do raciocínio, a evolução da dívida em relação ao PIB depende de quatro elementos. O primeiro é o próprio nível da dívida, em relação ao PIB. Como sabe qualquer pessoa que tenha comprado a sua habitação em prestações, existe um limite ao montante que pode ser consagrado em cada ano ao reembolso da dívida. Quando a dívida é muito elevada, esse montante serve principalmente para pagar os juros da dívida, de forma que o montante da dívida não diminui. Suponhamos que um país possa consagrar no máximo 5% do seu rendimento (o PIB) ao seu reembolso, sendo este máximo determinado pelo montante que os credores estão dispostos a emprestar em cada ano. Se a dívida representa 40% do PIB e a taxa de juro é de 3%, o pagamento de juros absorve 1,2% do PIB e é possível reduzir o endividamento em 3,8 pontos do PIB por ano. Pelo contrário, se a dívida atingiu 120% do PIB, o pagamento de juros absorve 3,6% do PIB e a dívida só pode ser reduzida 1,4 pontos do PIB por ano.

O segundo elemento é a taxa média de juro da dívida: quanto mais elevada for essa taxa, maior será o peso da dívida. No caso da Itália, se a taxa de juro for a que o Reino Unido paga, 2%, para uma dívida que representa 120% do PIB, os juros representam 2,4% do PIB a pagar em cada ano. Se a taxa de juro for a que a Itália paga atualmente, 6,4% nos empréstimos a 10 anos, os juros representam 7,68% do PIB! Se esse nível for possível, levará a um rápido crescimento da dívida. Se esse nível for impossível, porque o país está comprometido com os seus parceiros a não ultrapassar o déficit de 3% ou porque o país não encontra empréstimos para financiar esse déficit, o país deve reduzir a despesa pública e aumentar os impostos, com risco de travar o crescimento.

O crescimento, precisamente, é o terceiro elemento. Ele funciona em sentido positivo, reduzindo a taxa de endividamento. De fato, imaginemos uma dívida de 1,8 bilhão para um PIB de 1,5 bilhão. O endividamento é de 120%. Se o crescimento for de 3%, durante um ano, o PIB será de 1,545 bilhão, mantendo-se a dívida, de forma que a taxa de endividamento baixou 3,5 pontos, baixando para 116,5%.

Um quarto elemento funciona no mesmo sentido: a subida dos preços, que aumenta o PIB sem aumentar a dívida (se ela for subscrita a taxa fixa, o que é normalmente o caso).

Em resumo, na ausência de déficit primário, a dívida evolui em função do seu montante inicial, da taxa de juro, da taxa de crescimento da economia e da subida dos preços. Mas estes quatro elementos não são independentes uns dos outros. Eis o segundo passo do raciocínio. A interação mais evidente é que um excedente orçamental permite reduzir o montante da dívida, mas reduz ao mesmo tempo o crescimento, de forma que é preciso muita austeridade para conseguir uma pequena baixa da dívida. A elevação do endividamento aumenta os riscos de falência, e como tal a taxa de juro pedida pelos credores... e por conseguinte a dívida. A inflação aumenta o PIB, mas também a taxa de juro.

Estas interações complicam a busca de uma solução.

A equação italiana

A Itália tem dois problemas: uma dívida elevada e um crescimento quase nulo desde há quinze anos. Esta ausência de crescimento faz com que, apesar de uma gestão muito prudente das finanças públicas, a taxa de endividamento aumente. A Itália está pois ameaçada pelo efeito “bola de neve” da dívida: ela aumenta por si só e fica completamente fora de controle.

Esta situação é evidentemente inquietante. Apresenta-se assim atualmente:

Dívida / PIB - 120%

Taxa de juro – 6,4%

Taxa de crescimento – 0,5%

Subida dos preços – 2,7%

Enquanto os economistas calculam que a taxa de juro, a longo prazo, deveria ser igual à taxa de crescimento mais a subida dos preços, constata-se que há atualmente uma enorme diferença entre as duas: 6,4% - 0,5% - 2,7% = 3,2%. A taxa de endividamento aumenta portanto mecanicamente 3,2% x 120% = 3,8% por ano, aproximadamente.

Certamente, a solução preconizada pela Alemanha, e portanto pela Europa, que consiste em acentuar a austeridade, não terá mais sucesso na Itália do que na Grécia ou em Portugal. Como é que a Itália pode sair desta situação? É possível agir em três questões.

Um mecanismo claro que elimine todo o risco de falência sobre a dívida italiana chegaria para que as taxas de juro baixassem 2% ou 3%, o que seria suficiente para estabilizar a dívida. O mais simples seria evidentemente que o BCE declarasse que compra dívida italiana em certas circunstâncias (por exemplo, se as taxas ultrapassarem um determinado valor, pois o nível das taxas de juro faz parte dos objectivos intermédios do BCE). Mas será necessário muito suor, sangue e lágrimas (e uma mudança de governo) para que a Alemanha aceite um tal sacrilégio.

Na sua ausência, resta o FEEF, Mas quem vai aprovisioná-lo? Certamente não será a França, que tem um endividamento preocupante. E os emergentes fizeram saber claramente, sob a influência do Brasil, que só financiarão a Europa através do FMI, meio para eles aumentarem os seus direitos de voto naquela instituição. Resta a Alemanha, que um dia terá de escolher entre renunciar aos seus princípios ou pagar.

O crescimento italiano pode acelerar? Isso suporia importantes mudanças estruturais: eficácia do Estado, qualidade do sistema financeiro e peso do crime organizado levantam problemas difíceis para resolver. Quanto à inflação ela não deverá aumentar, o BCE velará por isso.

Ou seja, há todas as razões para estar pessimista.

Artigo de Arnaud Parienty, professor de economia, publicado em alternatives-economiques.fr/blogs Traduzido por Carlos Santos para Esquerda.net.

Foto de eleven1967/flickr.

Venezuela comemora 6º ano de erradicação do analfabetismo

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Mundo

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, destacou hoje (29) a ajuda que recebeu do governo cubano com o método educativo "Eu posso sim" [Yo sí puedo]. A Venezuela comemora hoje o 6º aniversário da declaração do país como território livre de analfabetismo.



Durante uma chamada telefônica com os promotores do Grande Pólo Patriótico, reunidos no Teatro Teresa Carreño, o mandatário saudou "esse milhão e meio de compatriotas que aprenderam a ler e escrever, alguns com 80 anos e mais".

Chávez felicitou "Cuba Revolucionária, que pôs a nossa disposição seu método Yo sí puedo e toda a experiência de Fidel Castro e do povo cubano. Obrigado, Cuba; Obrigado, Fidel, neste aniversário".

Chávez lembrou que, há seis anos, a Venezuela foi declarada território livre de analfabetismo pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), devido à aplicação da Missão Robinson, que chegou aos lugares mais recônditos do país para oferecer a possibilidade de aprender a ler e escrever a pessoas que no passado não tiveram esta oportunidade.

Entre outros pontos, o programa contribui com a capacitação integral e presta apoio às iniciativas socioprodutivas dos estudantes, sem levar em conta a idade e sexo. Inclui indígenas, reclusos, afrodescendentes, imigrantes, integrantes da Missão Negra Hipólita e pessoas com necessidades especiais.

Fonte: Prensa Latina

Brasil e Cuba se unem para desenvolver pesquisa contra o câncer

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Mundo

Os governos de Cuba e do Brasil começarão a desenvolver pesquisas conjuntas sobre medicações contra o câncer, divulgou nesta quarta-feira (12) o CIM (Centro de Imunologia Molecular) da industria biotecnológica cubana, em Havana.


A gerente de comercialização da CIMAB, empresa encarregada da distribuição dos produtos da CIM, Norkis Arteaga, afirmou que se tratam de "cinco pesquisas" a respeito do uso de um anticorpo específico em casos da enfermidade detectados "no colo do útero, no esôfago, no sistema nervoso, na cabeça e no pescoço".

Arteaga acrescentou, em uma entrevista concedida à agência cubana de notícias Prensa Latina, que uma espécie diferente será testada em "tumores de pulmão".

Ela também disse acreditar que uma série de convênios firmados com o Brasil recentemente consolidarão a cooperação bilateral nas áreas de saúde. "É da vontade do governo brasileiro assimilar a tecnologia cubana para produzir estes compostos", publicou a agência. De acordo com a gerente, o centro estatal está expandido seus mercados na América Latina, na Ásia e na África.

Fonte: Ansa

Ocupar Wall Street: o que todos querem saber sobre o movimento

Escrito por http://www.cartamaior.com.br/ Ligado . Publicado em Mundo

É um coletivo de ativistas, sindicalistas, artistas, estudantes, que se reunira antes na campanha “New Yorkers Against Budget Cuts” [Novaiorquinos contra os cortes no orçamento]. Para muitos norte-americanos, essa ação direta não violenta é a única oportunidade que resta para que tenha alguma voz política. E isso tem de ser levado a sério pelos que ganham a vida na imprensa-empresa. Em artigo sob a forma de uma entrevista, ativista do movimento diz a que ele veio.

PERGUNTA: Ouvi dizer que o grupo Adbusters organizou o movimento Occupy Wall Street? Ou os Anonymous? Ou US Day of Rage? Afinal, quem juntou todo mundo lá?

RESPOSTA: Todos esses grupos participaram. Adbusters fez a convocação inicial em meados de julho, e produziu um cartaz muito sexy, com uma bailarina fazendo uma pirueta no lombo da estátua do Grande Touro [ing. Charging Bull], com a polícia antitumultos no fundo. O grupo US Day of Rage, criação da estrategista de Tecnologias da Informação, TI [ing. Information Technologies, IT] Alexa O'Brien, que existe quase exclusivamente na Internet, também se envolveu e fez quase todo o trabalho inicial de encontros e pelo Tweeter. O grupo Anonymous – com suas múltiplas, incontáveis e multiformes máscaras – agregou-se no final de agosto. Mas em campo, em New York, quase todo o planejamento foi feito pelo pessoal envolvido na Assembleia Geral de NYC.

É um coletivo de ativistas, artistas, estudantes, que se reunira antes na campanha “New Yorkers Against Budget Cuts” [Novaiorquinos contra os cortes no orçamento]. Essa coalizão de estudantes e sindicalistas acabou de levantar a ocupação de três semanas perto do City Hall, que recebeu o nome de Bloombergville, na qual protestaram contra os planos do prefeito, de demissões e cortes no orçamento da cidade. Aprenderam muito naquela experiência e estavam ansiosos para repetir a dose, dessa vez em movimento mais ambicioso, aspirando a ter mais impacto. Mas, de fato, não há ninguém, nem grupo nem pessoa, comandando toda a ocupação de Wall Street.

PERGUNTA: Ninguém manda? Ninguém é responsável? Como se tomam as decisões?

RESPOSTA: A própria Assembleia Geral tomou as decisões para a ocupação na Liberty Plaza, apenas alguns quarteirões ao norte de Wall Street. (Ali ficava o Parque Zuccotti, antes de 2006, quando o espaço foi reconstruído pelos proprietários da área, Brookfield Properties, que lhe deram o nome do presidente da empresa, John Zuccotti.) Agora, lá vai; vai soar como jargão. A Assembleia Geral é um coletivo horizontal, anônimo, sem chefia, sistema de consenso autogerido com raízes no pensamento anarquista,muito semelhante às assembleias que têm conduzido vários movimentos sociais em todo o mundo (na Argentina, na Praça Tahrir no Cairo, na Puerta Del Sol em Madrid e em outros pontos). Não é simples trabalhar para gerar consensos novos. É difícil, frustrante e lento. Mas os ocupantes estão usando o tempo e trabalhando sem parar. Quando chegam a algum consenso, o que muitas vezes exige dias e dias de discussões e de tentativas, a sensação de alegria é quase indescritível e inacreditável. Ouvem-se os gritos de alegria por toda a praça. É experiência difícil de descrever, ver-se ali, cercado de centenas de pessoas apaixonadas, empenhadas, rebeladas, criativas e todos em perfeito acordo sobre alguma coisa.

Por sorte, não é preciso discutir tudo nem é indispensável haver perfeito consenso sobre tudo. Há vários (e o número deles aumenta sempre) comissões e grupos de trabalho que assessoram a Assembleia Geral – de comissão de Comida e Imprensa, a grupos de ação direta, segurança e limpeza. Todos são bem-vindos e cada um faz seu trabalho, sempre em tácita coordenação com a Assembleia Geral como um todo. A expectativa e a esperança é que, em resumo, cada indivíduo é capaz de fazer o que sabe e deseja fazer e de tomar decisões e agir como lhe parecer mais certo, com vistas ao bem de todo o grupo.

PERGUNTA: E o que esses manifestantes querem obter?

RESPOSTA: Ugh – eis a pergunta de um zilhão de dólares. A convocação inicial, disparada pelo grupo Adbusters pedia que cada um apresentasse uma única demanda: “O que é que você quer?” Tecnicamente, essa pergunta ainda não foi respondida. Nas semanas antes do dia 17/9, a Assembleia Geral de NYC parecia distanciada da linguagem das “exigências” e “demandas”. Isso, para começar. E em boa parte porque as instituições do estado, nos EUA, já estão tão infiltradas pelo dinheiro das grandes empresas, que apresentar demandas pontuais não faria sentido algum, pelo menos antes que o movimento crescesse um pouco e ficasse politicamente mais forte. Em vez de apresentar uma lista de demandas, optaram por fazer da própria ocupação sua principal demanda – com a democracia direta em ação, acontecendo na praça –, e daí pode ou não sair alguma demanda específica. Se se pensa um pouco, o ato de ocupar já é uma potente declaração contra a corrupção que Wall Street passou a representar. Mas, uma vez que pedir que pense é quase sempre pedir demais à imprensa-empresa de massa nos EUA, a questão das demandas acabou por converter-se em considerável problema de Relações Públicas, para o movimento.

Nesse momento, a Assembleia Geral está no processo de decidir como poderá resolver a questão de unificar as demandas do movimento. É discussão realmente difícil e interessantíssima. Mas não espere demais.

Todos, na praça têm seu próprio modo de pensar sobre o que querem ver acontecer, é claro. Na parte norte da praça há centenas de cartazes de papelão colados, nas quais as pessoas escreveram seus slogans e demandas. Quem passa para e lê, com máxima atenção, ao longo de todo o dia. As mensagens estão por todos os lados, sim, mas também há uma certa coerência entre todas elas. Uma já é, pode-se dizer, unânime: “As pessoas, antes dos lucros”. Mas também estão sendo discutidas várias outras questões, que vão do fim da pena de morte, ao desmonte do complexo militar industrial; de saúde a preço acessível, a políticas de imigração mais benignas. E muitas outras coisas. Pode ser difícil e confuso, mas, repito, essas questões estão conectadas, todas elas, num determinado plano, num nível que ainda não se pode ver com clareza.

PERGUNTA: Alguns jornais e televisões estão pintando os manifestantes como sem foco, ou, pior, desinformados e completamente confusos. Que verdade há nisso?

RESPOSTA: É claro. Num mundo tão complexo como o mundo em que vivemos, todos somos desinformados sobre inúmeras questões, mesmo que saibamos muitas coisas sobre algumas poucas questões. Lembro de um policial que disse dos manifestantes, no primeiro ou segundo dia: “Eles acham que sabem tudo!” Os jovens são quase sempre assim. Mas, nesse caso, ver a superconcentração de riqueza em torno de Wall Street e a descomunal influência que tem na política, não exige conhecimento detalhado sobre o que faz e como opera um “fundo hedge” ou a cotação de venda das ações da Apple. Um detalhe que distingue esses manifestantes é, precisamente, a esperança de que seja possível viver num mundo melhor. Devo dizer que, para muitos norte-americanos, essa ação direta não violenta é a única oportunidade que resta para que tenha alguma voz política. E isso tem de ser levado a sério pelos que ganham a vida na imprensa-empresa.

PERGUNTA: Quantos responderam à convocação dos Adbusters? Que tamanho tem esse grupo? Que tamanho tem hoje e que tamanho algum dia teve?

RESPOSTA: A convocação inicial dos Adbusters previa atrair cerca de 20 mil pessoas para o Distrito Financeiro da cidade no dia 17/9. Apareceram 2 mil, um décimo do previsto, no primeiro dia. Apesar da verdadeira blitz que o grupo dos Anonymous disparou pelas mídias sociais, a maioria das pessoas simplesmente não ficou sabendo da convocação. Para piorar, organizações progressivas tradicionais, como sindicatos e grupos do movimento pacifista em geral, sentiram-se desconfortáveis com a convocação para uma ação tão amorfa, tão sem ‘demandas’. A primeira semana foi difícil, a polícia apareceu, muita gente foi presa e muita gente também deixou a praça para descansar e respirar. A imprensa de massa acabou por cobrir as prisões do fim de semana e a brutalidade policial atraiu a atenção de outros jornais e jornalistas. Agora, seja dia seja noite, nunca há menos de 500 pessoas na praça, e pelo menos metade dessas pessoas estão vivendo na praça, dormindo aqui. A qualquer momento do dia ou da noite, muitos milhares de pessoas em todo o mundo assistem a cenas filmadas aqui, em transmissões online que não se interrompem nunca, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Diferente de outros movimentos de massa, essa ocupação acabou por depender muito de um pequeno grupo de ativistas determinados e corajosos, quase todos muito jovens, que não se incomodam com dormir ao relento e enfrentar a polícia. Mas isso já começou a mudar. As notícias se espalham, a multidão já não é composta exclusivamente de muito jovens, há maior diversidade. E a ideia de ocupar território, de não arredar pé, já mostra que gera efeitos mais consistentes do que se poderia esperar de uma marcha tradicional. Afinal de contas, houve uma marcha de 20 mil pessoas por Wall Street dia 12 de maio – protestaram contra o resgate aos bancos e os cortes no orçamento para o funcionalismo público – e quem se lembra daquela marcha?

PERGUNTA: O que seria um cenário de “vitória” para a ocupação?
RESPOSTA: Outra vez, a resposta dependerá de quem tiver de responder essa pergunta. Quando se aproximava o dia 17 de setembro, a Assembleia Geral de NYC realmente viu seu objetivo, outra vez, não como fazer aprovar alguma lei ou iniciar uma revolução, mas como começar a construir uma nova espécie de movimento. Eles queriam fomentar o surgimento de assembleias desse tipo que se vê aqui, em vários bairros da cidade, por todo o mundo, que pudessem ser uma nova base para outro tipo de organização política nos EUA – e contra a inadmissível influência do dinheiro das grandes empresas. Isso, agora, está começando a acontecer, quando ocupações semelhantes a essa começam a brotar em dúzias de outras cidades. Outra grande ocupação está sendo preparada há meses , planejada para começar dia 6/10 na Freedom Plaza em Washington, D.C. Os organizadores dessa segunda ocupação estão visitando a ocupação aqui em NY, na Liberty Plaza. Andam por aí, vão e vem, aprendendo o que podem dos erros e acertos.

Já ouvi gente dizer, quando a Liberty Plaza estava cheia de câmeras de TV “Já ganhamos! Vencemos!” Outros dizem que a coisa está só começando. Os dois, em certo sentido, têm razão.

PERGUNTA: E a polícia? Estão também ocupando a praça? Atacaram mesmo com brutalidade? Se eu for à praça, há riscos? O que pode acontecer?

RESPOSTA: A polícia não sai da praça e, sim, houve alguns confrontos muito violentos, assustadores. Também se viram atos de extrema coragem física e moral de gente comum. O pior momento aconteceu no sábado passado, sim, mas, depois daquilo, praticamente não houve mais problemas. Ninguém tem qualquer intenção de ser preso, e praticamente ninguém tem interesse em correr riscos desnecessários ou em instigar a violência contra pessoas ou propriedades. Quanto mais pessoas comuns vierem para cá juntar-se ao movimento – aliando-se a gente famosa e celebridades como Susan Sarandon, Cornel West e Michael Moore – menos provável será que a polícia reprima a ocupação. Como se lê num cartaz na Broadway: “A segurança vem dos grandes números! Junte-se a nós!"

De qualquer modo, desafiar os poderes que se encastelam nessa rua – e fazê-lo sem pedir licença e fazendo barulho – não é ação que possa ser 100% segura. Quanto mais o movimento conseguir se impor e falar, mais riscos haverá. Se você quiser vir, boa providência será anotar o telefone da National Lawyers Guild [alguma coisa como a OAB] no próprio braço, por via das dúvidas.

PERGUNTA: Se eu não puder ir à Wall Street, o que mais poderia fazer?

RESPOSTA: Muita gente está trabalhando muito lá mesmo, onde está – é a magia da descentralização. Você pode assistir às transmissões online, distribuir notícias, doar dinheiro, retuitar informes e estimular seus amigos a participar. Pessoas que entendem de máquinas e programas já estão trabalhando como voluntários, para manter no ar as páginas e blogs do movimento e editar vídeos – em coordenação com salas-de-bate-papo IRC e outras mídias sociais. Em breve, as discussões sobre ‘demandas’ do movimento serão feitas também online, além de presencialmente, aqui na praça. Offline, você pode juntar-se a ocupações semelhantes que estão começando pelo país ou, se preferir, pode começar sua própria ocupação, onde estiver.

Em todos os casos, você sempre deve lembrar um conselho de uma mulher, na Assembleia Geral na noite de 3ª-feira, que já é um dos vários mantras que circulam: “Ocupe o seu próprio coração”, disse ela. “Com amor, não com medo”.

(*)Nathan Schneider é editor senior de "Killing the Buddha", uma revista online de religião e cultura.

Fonte:
http://www.thenation.com/article/163719/occupy-wall-street-faq

Tradução: Coletivo Vila Vudu