Outro 11 de Setembro: um Chile 'em parafuso' relembra o golpe contra Allende

Escrito por João Peres, Rede Brasil Atual Ligado . Publicado em Mundo

O 11 de Setembro chileno, menos badalado, não é menos importante: este ano, mostra que a transição de Pinochet para a democracia não foi pacífica, mas incompleta

 

Última atualização às 15:37

Outro 11 de Setembro: um Chile 'em parafuso' relembra o golpe contra Allende

A eleição de Salvador Allende com maciço apoio popular despertou a reação das forças conservadoras, apoiadas pelo EUA (Foto: Fundácion Allende)

São Paulo – Menos badalado que o “rival” do Norte, o 11 de Setembro chileno não é menos importante. A data, que marca o aniversário do golpe de Estado perpetrado pelo general Augusto Pinochet em parceria com os Estados Unidos contra o governo constitucional de Salvador Allende, é sempre um chamado à reflexão.

O Chile de hoje olha para trás e não se encontra. Onde está aquele país vendido ao mundo como maravilhoso, um exemplo de coesão social, de harmonia e paz? Quem terá desaparecido com uma nação cantada em verso e prosa pela mídia brasileira, o porto seguro para os negócios privados e para as férias de inverno?

O curioso é que os mais jovens parecem ter a resposta. Os estudantes, mobilizados há mais de três meses para exigir uma reforma no sistema educacional chileno, são os autores das mais claras manifestações de que é hora de fazer desaparecer do cotidiano o entulho deixado por Pinochet. Foi preciso que um governo conservador viesse à tona para evidenciar o quanto de “herança maldita” – para nos atermos à expressão querida pela imprensa pátria – há em curso no país.

Os alunos e seus professores rejeitam qualquer acordo negociado entre a classe política tradicional e recusam a intermediação de deputados e senadores. Querem falar por si. O descrédito da vida política institucional chilena ficou evidente em pesquisa divulgada esta semana. Impressionantes 68% reprovam o presidente Sebastián Piñera. Apenas 24% se dizem identificados de alguma maneira com o atual governo.

Seria de se imaginar que, então, a maioria se sinta alinhada à oposição, mas não é isso que mostram os números. 71% reprovam a Concertação, bloco de partidos que governou o país durante duas décadas e que agora comanda, ao menos numericamente, a oposição. Mais que isso, 37% não se identificam nem com um lado, nem com o outro.

“Fatal seria que os insurgentes de hoje depositássemos na Constituição, nas leis vigentes e na tramitação parlamentar a solução da crise educacional, a reforma tributária e outras múltiplas demandas cidadãs”, cravou, em artigo para o jornal El Ciudadano, Juan Pablo Cárdenas, diretor da Rádio da Universidade Nacional do Chile e antigo analista da política nacional. Para ele, a batalha pela reforma educacional é apenas a mãe de muitas outras que resultarão em uma Assembleia Constituinte e em uma nova Constituição, após a qual finalmente se poderá falar em democracia, justiça e liberdade.

Filhotes

O atual sistema educacional chileno é filhote da ditadura de Pinochet. No início da década de 1980, o governo apostou que o caminho era a abertura ao setor privado, e a ideia da educação como direito básico foi substituída pela “liberdade de escolha”, nos moldes do livre mercado proposto pelas teorias neoliberais em voga.

Com isso, as escolas particulares foram abertas aos montes, e passaram a receber fortes subsídios estatais para concorrer com as instituições privadas – a crença de que a competição resolveria uma questão na qual o Estado não deveria se imiscuir diretamente. O resultado é a contestação que ora se vê, com estudantes exigindo o fim da concessão de benesses a empresários que enriquecem sem entregar o produto – no caso, o ensino.

Nas universidades, públicas ou privadas, é preciso pagar matrícula e mensalidades, o que leva jovens a ingressarem em dívidas que lhes afetarão boa parte da vida adulta. “O Chile foi um laboratório da influência da Escola de Chicago. A repressão garantia as condições políticas para implementar um ajuste liberal extremamente radical no qual as pessoas não podiam se manifestar”, afirma Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A Escola de Chicago, comandada por Milton Friedman, foi a grande fomentadora dos pensamentos ultraliberais, ou neoliberais, que passaram a ser implementados em escala continental entre as décadas de 1980 e 1990. Friedman preconiza o Estado mínimo, acreditando que as questões podem ser resolvidas pelo mercado.

No Chile, isso significou a mudança acelerada e abrupta de rumos de uma nação que vinha aumentando a participação do Estado na economia. “O evento do Chile teve uma repercussão muito ampla. Para os Estados Unidos, se desse certo a transição do Chile para o socialismo, isso influenciaria uma série de países na leitura de que era possível chegar ao poder e implantar o socialismo dessa forma”, comenta Ayerbe.

Allende acreditava na força das instituições chilenas para conduzir um processo de mudança por dentro do Estado, sem a necessidade de uma ruptura nos moldes cubanos. Para isso, contava com uma convivência institucional de larga data, exceção na América do Sul, o que o levava a crer que os militares não romperiam com a ordem vigente. Mas não foi esse o caminho escolhido pelos leais a Pinochet, que em 11 de setembro de 1973 bombardearam o Palácio de La Moneda, um episódio forte e de caráter simbólico para a história latino-americana.

O professor da Unesp pontua que havia dois lados opostos muito claros na região. Em um flanco, o crescimento dos regimes militares. Em outro, o fortalecimento das linhas da esquerda que acreditavam na possibilidade de êxito da luta armada. “Na avaliação dos dois lados, era possível que houvesse uma reviravolta na região com uma sucessão de movimentos revolucionários que chegasse ao poder.”

Heranças

Este ano, o Chile promoveu a exumação do corpo de Allende para sanar uma dúvida de fundo histórico. Quando do bombardeio, o presidente foi morto ou cometeu suicídio? A mensagem deixada pelo político da Unidade Popular e os depoimentos de amigos permitiam supor se tratar de um atentado à própria vida, mas o exame se fazia necessário para dirimir qualquer resquício de inquietação. Por fim, a perícia comprovou a tese do suicídio, o que colocava no horizonte a possibilidade de um 11 de Setembro mais tranquilo.

Pelo contrário. A hora é de contestação. Quando as massivas marchas começaram a incomodar o governo, Piñera não hesitou em lançar mão de um decreto da época de Pinochet que permite a repressão a reuniões públicas que não tenham sido autorizadas pelo poder público. A Organização dos Estados Americanos (OEA) reagiu, e pontuou que o Estado chileno deve respeitar os direitos à expressão, à manifestação e à reunião pública. Os líderes dos movimentos de contestação foram além, e usaram os entendimentos da OEA para indicar que a lei do país não pode ignorar o que está decidido em caráter internacional. Agora, caberá ao Judiciário definir a validade do decreto.

De todo modo, o estrago na imagem do presidente está feito, e ele enfim se rendeu à abertura de negociações com os jovens, mas logo recebeu o aviso de que tudo será submetido à avaliação das massas e de que só se aceita negociar com base em um novo sistema, sem a tomada de medidas que apostem na estrutura educacional atual, como tentara fazer Piñera por duas vezes. A intenção é ainda mudar a Constituição para garantir a realização de plebiscitos, hoje vetados.

A manutenção de uma Carta Magna com pontos anacrônicos evidenciou que a Concertação, que assumiu o país logo após o fim da era Pinochet, não rompeu de todo com o passado. Durante muitos anos, o Chile se orgulhou de haver realizado uma transição pacífica, negociada, diferentemente da ruptura promovida na Argentina.

Em 1980, o ditador realizou um plebiscito para saber se deveria seguir ou não no poder. A população votou pela saída do militar, mas esse hasta luego demorou oito anos para se concretizar. Agora, uma nova geração vem a público para bradar: a transição não foi pacífica, ela foi incompleta. Em suma, a crença no mercado como solução para todos os males sociais não desapareceu. “A Concertação apostou que era necessário investir na coesão social, mas manteve a lógica liberal, privatista, e esse modelo não funciona para a maioria”, diz Ayerbe.

O Caos da ordem

Escrito por BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS Ligado . Publicado em Mundo

Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança.

Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo "legal" dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.

Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.

A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.

Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.

Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.

Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.

Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma "criminalidade pura e simples", como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.

Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.


*BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).

Papa ataca visão utilitarista do ensino

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Mundo

Em fala a professores universitários, Bento XVI critica a ideia de que a educação deve se limitar a satisfazer as demandas do mercado

AFP, Efe e Reuters - O Estado de S.Paulo

No segundo dia de sua visita à Espanha, o papa Bento XVI criticou, em encontro com cerca de 1,5 mil professores universitários, a tendência "utilitarista" da educação nas últimas décadas, que se limita a satisfazer a "demanda do mercado".

Celebração. Bento XVI durante procissão em Madri, no fim da tarde; antes, ele se reuniu com acadêmicos, algo inédito em uma Jornada Mundial da Juventude - Rafa Rivas/AFP
Rafa Rivas/AFP
Celebração. Bento XVI durante procissão em Madri, no fim da tarde; antes, ele se reuniu com acadêmicos, algo inédito em uma Jornada Mundial da Juventude

O encontro com professores de ensino superior foi feito a pedido do papa, na Espanha por ocasião da Jornada Mundial da Juventude - reunião de jovens criada no pontificado de João Paulo II, que termina amanhã.

"Às vezes se pensa que hoje a missão de um professor universitário seja exclusivamente a de formar profissionais competentes e eficazes, que satisfaçam à demanda trabalhista", criticou. "Também se diz que se deve privilegiar a mera capacitação técnica. Certamente, difunde-se na atualidade essa visão utilitarista da educação, incluindo a universitária, mas especialmente nos âmbitos extrauniversitários", continuou Bento XVI, aplaudido de pé na Basílica de São Lourenço do Escorial, próximo a Madri.

Na opinião do papa, a visão meramente utilitarista da educação é antiética e leva ao totalitarismo. "Quando apenas a utilidade e o pragmatismo são eleitos como critério principal, as perdas podem ser dramáticas: desde os abusos de uma ciência sem limites até o totalitarismo político, que se aviva facilmente quando se elimina toda referência superior ao mero cálculo de poder." Para ele, a universidade deveria voltar à sua autêntica vocação, a da "busca da verdade humana".

Antes de ser papa, Joseph Ratzinger foi professor universitário por 25 anos. Ele recordou a grandeza da vida intelectual interdisciplinar na Universidade de Bonn, que frequentou após a 2.ª Guerra. "Quando ainda se sentiam as feridas da guerra, consolavam-nos uma atividade apaixonante, o trato com colegas de diversas disciplinas e o desejo de responder aos questionamentos fundamentais dos alunos."

"A universidade encarna, pois, um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional nem por um servilismo a uma simples lógica utilitarista de mercado, que vê o homem como mero consumidor. Eis aí sua importante e vital missão", disse aos docentes.

Procissão. De volta a Madri, o papa encerrou o dia com uma procissão. Durante o ato, ele ouviu orações de diferentes setores da sociedade, que incluíram vítimas de abuso sexual e desempregados.

Mais cedo, Bento XVI se reuniu com o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero.

A viagem tem sido marcada por protestos. Na noite de quarta-feira houve confronto da polícia com manifestantes que criticaram os custos da visita papal. O Vaticano lamentou o ocorrido, que classificou como "marginal".

Tariq Ali e os protestos em Londres

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Mundo

Por Tariq Ali, no blog Escrevinhador:

Por que sempre as mesmas áreas eclodem primeiro, seja qual for a causa? Puro acidente? Poderia ter algo a ver com raça, classe, pobreza institucionalizada e a pura rigidez da vida cotidiana? Os políticos da coligação, com suas ideologias petrificadas, não podem dizer isso. Os três partidos são igualmente responsáveis pela crise. Eles fizeram a bagunça.



Eles privilegiaram os ricos. Eles deixaram claro que os juízes e magistrados devem dar o exemplo, dando sentenças punitivas para os manifestantes encontrados com armas de brinquedo. Eles nunca questionaram seriamente por que nenhum policial nunca foi processado pela morte de mais mil pessoas que estavam sob custódia, desde 1990. Seja qual for o partido, seja qual for a cor da pele do parlamentar, eles soltam os mesmos clichês. Sim, sabemos que a violência nas ruas de Londres é ruim. Sim, sabemos que saquear lojas é errado. Mas por que isso está acontecendo agora? Por que não aconteceu no ano passado? Porque as queixas se acumularam ao longo do tempo, porque quando o sistema determina a morte de um jovem cidadão negro de uma comunidade carente, ela quer a resposta.

E pode piorar se os políticos e a elite econômica, com o apoio da televisão estatal e das emissores de Murdoch, falharem em lidar com a economia e punirem os pobres e menos favorecidos pelas políticas de governo que eles vêm promovendo pelas últimas três décadas. Desumanizar o “inimigo”, em casa e no exterior, criando medo e prisões sem julgamentos, não funciona para sempre.

Se houvesse um partido de oposição política sério neste país, ele estaria argumentando a favor do desmonte do instável andaime do neoliberalismo, antes que este se desintegre e machuque ainda mais pessoas. Em toda a Europa, as características que uma vez distinguiam os de centro-esquerda dos de centro-direita e os conservadores dos social-democratas desapareceram. A mesmice da política oficial priva os segmentos menos privilegiados do eleitorado, a maioria.

Os jovens negros desempregados ou semi-empregados em Tottenham, Hackney, Brixton e Enfield sabem muito bem que o sistema está contra eles. A falação dos políticos não tem impacto real sobre a maioria das pessoas, muito menos sobre os que estão incendiando as ruas. Os fogos serão apagados. Haverá um ou outro inquérito patético para apurar por que Mark Duggan foi morto a tiros, lamentações serão expressas e haverá flores da polícia no funeral. Os manifestantes presos serão punidos, todos vão suspirar de alívio e seguir em frente. Até isso acontecer novamente.

* Publicado originalmente no London Review of Books. Tradução de Juliana Sada.

Obama: acordo não é o desejado, mas encerra longo processo

Escrito por David Brooks, do La Jornada - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

Após uma intensa negociação de última hora entre a liderança política suprema do país, o presidente Barack Obama anunciou na Casa Branca, em mensagem transmitida ao vivo ao mundo: líderes de ambos partidos em ambas câmaras conseguiram chegar um acordo que reduzirá o déficit e evitará a suspensão de pagamentos, que provocaria um efeito devastador sobre nossa economia. Apenas 48 horas antes da data fatídica, na qual o governo poderia deixar de cumprir suas obrigações financeiras, Obama informou que o acordo eleva o teto da dívida (atualmente de 14,3 trilhões de dólares) e propõe cortes de aproximadamente 2,5 trilhões nos gastos públicos, ao longo dos próximos dez anos. Embora não seja o acordo desejado, disse Obama, ele põe fim a um processo demasiadamente longo e desordenado.


Obama convocou os legisladores a aprovar a proposta negociada nos próximos dias. O acordo terá que ser votado nas duas câmaras do Congresso e depois promulgado por Obama, processo que iniciará nesta segunda-feira. A duração deste processo dependerá das dificuldades em negociar votos suficientes para a aprovação do acordo, sobretudo na Câmara de Representantes. Ali, tanto legisladores democratas liberais [mais à esquerda, na linguagem política norte-americana] quanto republicanos ultraconservadores expressaram sua rejeição ao acordo firmado.

O acordo inclui uma primeira etapa de cortes de pouco menos de 1 trilhão de dólares nos gastos federais, e estabelece uma comissão bipartidária para recomendar outros 1,5 trilhões de dólares em cortes no orçamento, que serão aplicados mais trade por ação legislativa ou de maneira automática (se o Congresso falhar nesta ação), e que deverão afetar desde o gasto militar até os programas sociais.

Poucas horas antes, com os indícios de um acordo iminente, mudou o clima em Washington e Wall Street ao se perceber que a cúpula política estava finalmente a ponto de resolver o que quase se converteu em uma crise nacional. Os mercados financeiros começaram a responder de maneira positiva ante a expectativa do anúncio de um acordo e de uma votação legislativa sobre o assunto.

Mas as consequências políticas continuarão se manifestando daqui em diante. Após semanas de intensa disputa sobre o assunto, que alarmou os mercados financeiros e extenuou os cidadãos, o espetáculo político em Washington poderia ter severas consequências eleitorais tanto para o presidente Obama como para a liderança republicana. De fato, para alguns analistas, tudo o que ocorreu foi mais teatro político com fins eleitorais do que uma disputa em torno do assunto da dívida. Elevar esse teto é quase sempre um procedimento automático e ocorre em média quase duas vezes por ano desde 1940, sem que tenha se verificado nada parecido ao que aconteceu nesta ocasião, assinalam.

Tradução: Katarina Peixoto