A morte de Bin Laden e o triunfo do “Comandante Obama”

Escrito por Martín Granovsky - Página/12 - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

Reproduzido do site Carta Maior

O novo diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), que acaba de ser proposto por Barack Obama, o general David Petraeus, será confirmado pelos senadores. Se restava alguma dúvida, seu último posto foi o chefe das forças da OTAN no Afeganistão. Assumirá como diretor da CIA com o troféu de Osama Bin Laden morto e as mãos livres para reforçar as operações militares encobertas.

Petraeus foi o arquiteto das operações de George Bush no Iraque e, nos últimos anos, apoiou os ataques contra bases da Al Qaeda não só no Afeganistão, mas também no Paquistão, onde Bin Laden foi morto. A morte de Bin Laden ocorre alguns meses antes de se completarem dez anos do atentado que destruiu as Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Em termos práticos e simbólicos, a operação da CIA confirma que Washington se aproxima do ponto de deixar o lugar de primeira potência econômica nas mãos da China, mas segue sendo a primeira, longe de qualquer outra, em capacidade de uso da força, incluindo aí operações de contrainsurgência.

Por isso, Obama, no discurso realizado na noite de domingo, lembrou que o ataque foi dirigido contra as Torres Gêmeas e também contra o Pentágono, na primeira agressão externa contra território norteamericano em sua história. Por isso, também, recordou que deus instruções a Leon Panetta definindo que a missão principal da CIA era encontrar Bin Laden vivo ou morto. Uma mensagem de gratificação e, ao mesmo tempo, de respaldo: Panetta foi designado e está por assumir como ministro da Defesa, onde deverá diminuir brutalmente o gasto militar e reorientá-lo. Também é chave no discurso a menção aos oficiais encarregados de operações encobertas: “Ninguém conhece seus nomes, mas o povo norteamericano deve estar agradecido a eles”, disse o presidente que assumiu no dia 20 de janeiro de 2009, e no final do ano que vem lutará para ser reeleito e iniciar outro mandato em 2013.

Obama sublinhou a palavra “eu” quando disse que ele mesmo deu a ordem de lançar o ataque contra o santuário onde Bin Laden estava refugiado no Paquistão. Ele transformou-se no presidente que liquidou o inimigo número um da superpotência. “Não vamos tolerar que nossa segurança seja ameaçada”, disse Obama.

O Washington Post anunciou, antes da notícia do assassinato de Bin Laden e ao comentar a nomeação de Petraeus, o começo de um período com “uma CIA cada vez mais militarizada”. Petraeus dirigiu a guerra do Iraque, um país governador pela tirania de Saddam Hussein que não era albergue de terroristas nem defendia o fundamentalismo islâmico. Logo em seguida, dirigiu a guerra do Afeganistão. O Washington Post assinalou que ser diretor da CIA significa, para Obama, liderar a terceira guerra: o combate, mediante operações encobertas ou dirigidas contra alvos específicos no Paquistão. Desde que o atual presidente assumiu, houve 192 ataques com mísseis em solo paquistanês, com um registro de 1890 terroristas ou suspeitos de sê-lo mortos.

Uma volta da história parece ir se completando. Obama acaba de anunciar o corte de impostos para os mais ricos, uma medida que vai no sentido inverso de sua promessa de voltar à sociedade menos desigual dos anos 60. E, com a morte de Bin Laden, obteve uma vitória no campo que parecia o seu flanco mais débil: o militar. Nesta madrugada, conservadores e liberais, direitistas e progressistas dos EUA, festejavam nas ruas a vitória do “comandante Obama”.

Tradução: Katarina Peixoto

O XII Plano quinquenal chinês: adeus a “Chimérica”

Escrito por Caroline Santos Ligado . Publicado em Mundo

Reproduzido do site Carta Maior

A medida que norteamericanos e europeus vão sendo estrangulados pelos planos de austeridade, as exportações alemães dirigem seus olhos para o Leste: ali segue prosperando uma necessidade gigantesca. Os países emergentes (China, Brasil e Índia) foram os que escaparam mais rapidamente da crise financeira mundial de 2008-2009, ainda que não sem alguns arranhões: a queda das exportações na China em 2009 arrastou consigo a produção, que caiu quase 21%, provocando o fechamento de várias empresas e o desemprego massivo nas províncias costeiras. Mais de 11 milhões de trabalhadores imigrantes perderam seu trabalho e a taxa oficial de desemprego subiu para 9%.

Apesar de tudo isso, a China poderia ter saído da crise em pior situação: apenas se fecharam alguns bancos. Enquanto prosseguiam as turbulências nos mercados financeiros, o governo do primeiro ministro Wen Jiabao decidiu reconfigurar Shangai como centro financeiro internacional e promover Hong Kong como centro financeiro offshore para os próprios títulos do Estado. Ao mesmo tempo, aprovou um pacote de estímulos fiscais de aproximadamente 590 bilhões de dólares. As províncias não ficaram atrás e injetaram bilhões de yuans em suas respectivas economias regionais. Nada de meias medidas: o pacote de estímulo conjuntural só pode ser comparado ao implementado por Barack Obama.

Estes programas permitirão o financiamento de uma série de medidas que sugerem uma reorientação do modelo de exportação chinês, com vistas a uma completa transformação da economia. Este Plano Quinquenal, cujas linhas principais foram esboçadas ano passado e aprovadas agora na Assembleia Popular Nacional da China, deixa isso bem claro. O governo compreendeu as lições da crise e quer mudanças. Festejado como o “primeiro plano quinquenal verde da história da China”, o plano prevê, para 2015, um país mais verde e mais social, igualitário, urbano e educado.

O Partido Comunista Chinês fixou uma meta de crescimento econômico médio de 7% até 2015. Um crescimento pausado, uma clara redução do consumo de energia e matéria primas, salários reais mais altos, um aumento do consumo privado, uma expansão do setor de serviços, um estado social mais generoso e melhor equipado: tudo isso tem consequências para a economia mundial.

O que se propõe aqui é nada mais nada menos que a despedida da “Chimérica”, a assombrosa interdependência econômica entre a China e os Estados Unidos. Os chineses querem, em um futuro próximo, exportar melhores produtos, produtos de alta qualidade, e, para isso, estão investindo massivamente na pesquisa tecnológica em suas indústrias estratégicas e na importação de tecnologia. Em última instância, a China diminuirá seu peso na balança comercial com os EUA e também a quantidade de dívida estadunidense em dólares em suas mãos. Isso coloca a pergunta sobre quem refinanciará, no futuro próximo, o déficit estatal estadunidense, caso os chineses prefiram investir seu dinheiro em matérias primas e empresas estrangeiras ao invés dos títulos do tesouro dos EUA.

Investimento em educação
A China quer acelerar a mudança estrutural de olho nas novas indústrias estratégicas como são as tecnologias da informação, as biotecnologias, os combustíveis não fósseis, as tecnologias ambientais, as novas matérias primas, os meios de transporte alternativos (automóveis híbridos e elétricos) e a tecnologia de ponta (trens de alta velocidade, satélites, “fábricas inteligentes”). Seu volume no Produto Interno Bruto do país deve aumentar 3% até 2015. A expansão do moderno de setor de serviços seria encarregada de domar o tigre do desemprego – até o momento o principal argumento contra o freio à economia exportadora – e o tigre da inflação (atualmente em torno de 4%).

O XII Plano Quinquenal parece ter sido pensado conscienciosamente: do ponto de vista macroeconômico, anima-se o mercado interno exclusivamente por meio de projetos macroeconômicos, isto é, construindo redes de transporte e energia ao longo do gigante asiático. Para fundamentar esta mudança com o potencial intelectual do país, se investirá massivamente (ao contrário do que ocorre hoje na Alemanha, por exemplo) em educação e pesquisa. Até 2015, a média de gastos em pesquisa e desenvolvimento deverá aumentar do atual 1,75% do PIB para cerca de 4%.

Pela primeira vez, o plano quinquenal contém um longo capítulo sobre a mudança climática. A China segue sendo o maior consumidor de energia do mundo e preocupa por suas elevadas emissões de dióxido de carbono. Mas a República Popular da China quer agora substituir o carbono por energias limpas e reduzir até 2015, em cerca de 17%, as emissões poluidoras em relação aos seus resultados econômicos (e entre 40% e 45% até 2020).

Para isso se comprometerá a investir um terço da arrecadação de impostos no desenvolvimento de energias renováveis. No momento, as empresas chinesas estão obrigadas por lei a prover seu consumo elétrico com fontes de energia alternativas, o que fará a China dispor da mesma quantidade de geração de eletricidade eólica e solar que a já alcançada pelos EUA. O programa atômico, no entanto, será mantido e não se fala de desconexão. A capacidade atual de 10,8 gigawatts dos 13 reatores atômicos existentes deverá receber o reforço de outros 40 gigawatts até 2015, provenientes de novas centrais atômicas. Isso agradará aos construtores de reatores atômicos da Alemanha e da França, que se jactam de ter as instalações mais seguras do planeta.

(*) Michael R. Krätke é membro do Conselho Editorial de Sinpermiso, professor de Política Econômica e Direito Tributário na Universidade de Amsterdã, pesquisador associado do Instituto Internacional de História Social desta mesma cidade e catedrático de Economia Política e diretor do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.

Tradução: Katarina Peixoto

"Est\u00e1 claro que o consenso de Washington j\u00e1 morreu"

Escrito por Página/12 - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

Reproduzido do site Carta Maior

Em entrevista ao jornal Página/12, o ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, diz que está se abrindo um novo cenário para o debate da economia mundial. Alguns dos elementos desse debate, acrescenta, apareceram na reunião dos ministros do G-20 e na assembleia conjunta do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Entre eles, destaca-se o debate sobre a regulação de capitais especulativos e a adoção por parte dos Estados de políticas ativas para promover a inclusão social. "As principais potências do mundo estão assinando o atestado de óbito do Consenso de Washington", resume.

“As principais potências do mundo estão assinando o atestado de óbito do Consenso de Washington e agora se abriu um debate sobre qual economia vem aí”, disse o ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, em uma entrevista telefônica ao jornal Página/12, desde os Estados Unidos, onde participou dos debates da reunião de ministros de Finanças do G-20 e na Assembleia Anual de Primavera do FMI e do Banco Mundial. Boudou definiu nestes termos a discussão que se deu entre os membros do G-20 no marco da assembleia do FMI. Um dos temas centrais em debate foi a alta de preços das commodities. “Se as potências querem diminuir a fome nos países pobres devem ajudá-los a gerar emprego”, enfatizou Boudou.

Com respeito ao novo índice nacional de preços ao consumidor, precisou que será realizada uma nova pesquisa de gastos e que o resultado será utilizado para os bônus ligados ao CER (Coeficiente de Estabilização de Referência, que ajusta mediante a variação do índice de preços ao consumidor os contratos do mês em curso).

Como se situa hoje a experiência econômica argentina frente ao debate econômico mundial?

O debate sobre o modelo que estamos implementando na Argentina há sete anos está instalado no mundo. As principais potências do mundo estão assinando o atestado de óbito do Consenso de Washington. Uma ideia que começou a morrer em Mar del Plata, quando o Mercosul, pelas mãos de Néstor Kirchner, disse não à proposta da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). O tema que a Argentina vem puxando é sobre um modelo de inclusão em escala internacional. Nesta reunião vimos que há cada vez mais países somando-se a esse debate. Mesmo dentro do FMI há aqueles que defendem que as crises em países como Egito ou Líbia têm a ver com o abandono da questão social.

Em reuniões anteriores já vínhamos conversando com distintos países sobre a necessidade de se somar aos informes anuais dos organismos, nos quais só aparecem dados macroeconômicos, outros elementos relacionados com registros sociais, trabalhistas e educativos. Nesta oportunidade, fechamos um acordo para defender essa proposta na reunião do Fundo. Espanha, África do Sul, Austrália, Brasil e Argentina mantiveram um discurso uniforme.

Com que argumentos defenderam esse critério de ampliar os elementos de avaliação?

Dizendo que é muito importante incorporar na discussão variáveis que não tenham a ver somente com o aspecto financeiro, mas também com questões sociais e relacionados ao trabalho. É indispensável incorporar variáveis educacionais na análise. Isso tem a ver com o crescimento do capital humano, com um dos principais problemas que os países enfrentam no mercado de trabalho que é a criação de trabalho para os grupos populacionais mais jovens que se incorporam ao mercado. Se não se investe em educação, se não se criam postos de trabalho, se não há mobilidade social, os crescimentos não são sustentáveis. Hoje está claro que o Consenso de Washington está morto e que está surgindo um mundo mais multipolar, que abre espaço para novas discussões.

Em que ponto está a discussão sobre o preço das commodities?

Há uma tentativa de que haja estoques de reserva para baixar os preços nos momentos de maior alta. Nós dizemos que, se há uma alta volatilidade de preços, isso não tem a ver com a economia real, mas sim com a especulação financeira. Aí, sim, estamos de acordo em trabalhar pela regulação de derivativos e fundos. De nenhuma forma pode-se apresenta, como desculpa para intervir no mercado de commodities, a fome, que já existia antes desta tendência. Podemos trabalhar em transferência tecnológica com os países pobres. As grandes economias fracassaram em colaborar com a criação de emprego nestes países, que é a única forma de erradicar a fome. É um argumento hipócrita das potências pedir que regulemos o preço das commodities para salvar os países pobres da fome.

Qual é sua opinião sobre o documento do FMI que voltou a falar sobre a inflação na Argentina?

Chama a atenção que se fale sobre os preços na Argentina como se esse fosse o principal problema que viemos tratar aqui. O problema é o déficit fiscal dos Estados Unidos, que este ano voltará a ser de 10% de sue PIB. O problema é sua forte taxa de emissão monetária. Há ainda os problemas da dívida de muitos países que até bem pouco tempo eram apontados como modelos. Hoje o problema da dívida no mundo é mais grave do que quando a região mais afetada era a América Latina. Seguirão aparecendo países que não poderão suportar seus passivos.

E com respeito à recomendação de baixar o gasto público na América Latina?

A discussão sobre se é preciso tirar o pé do acelerador esteve presente. A incorporação de mais e maiores consumidores na região não é totalmente benvinda no Norte. Eles pensam que isso eleva o preço das commodities. Querem que tenhamos menores taxas de crescimento. Essa é uma ideia que encontra eco em países como Chile, Colômbia e México. A ideia de utilizar recursos para criar fundos anticíclicos não tem sentido, porque os ativos que poupássemos perderiam valor no momento de uma crise. Nós dizemos que esse é o momento de acelerar mais, porque precisamos incluir a toda a sociedade. Quando falam de baixar o gasto, falam de ajuste. O que dizemos é que é importante diferenciar a qualidade do gasto público. E essa qualidade do gasto público é uma das bases do êxito do plano kirchnerista. Em 2002, o gasto em infraestrutura foi de 2 bilhões de pesos e este ano vamos superar a casa dos 60 bilhões de pesos. Isso é investimento para o crescimento. Por outro lado, um ajuste em nossos países não vai frear o preço das commodities, como afirma o documento do Fundo. E isso não vai permitir que solucionemos o que estamos solucionando. Estamos indo bem assim e não vamos mudar.

O governo argentino aceitará a volta das revisões periódicas exigidas pelo FMI aos seus membros em seu regulamento?

Algum dia voltaremos a cumprir o artigo quatro. A presidenta decidirá quando é o momento adequado. Mas nossa relação com o FMI sempre terá a ver com os aspectos técnicos. As decisões políticas são tomadas na Argentina. A fortaleza da presidenta para tomar decisões em momentos difíceis, quando todos diziam que era preciso seguir com a ortodoxia, demonstrou que temos que fazer aquilo que pensamento que é o melhor para o país. Ajudamos as empresas a manter os investimentos, os consumidores com planos de compra, mantivemos os controles aos capitais especulativos. Vemos muitos países que hoje estão mal por não seguir no caminho correto e outros que crescem e não geram emprego. Aqui o tema é que Washington tem uma burocracia de 50 anos que tenta manter sua influência para seguir vigente, depois que mostrou sua imperícia. Falam da fome na África de um modo muito cômodo desde a capital do império.

Já analisaram as recomendações do FMI para o novo índice de preços nacional?

O Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) recebeu essas recomendações. Nesta semana já vamos trabalhar sobre o tema. Mas é importante ressaltar que se trata de um trabalho muito importante e que vai levar tempo. O índice nacional vai substituir o atual que só leva em conta a área metropolitana. Vai ser um trabalho de fundo, com intervenção das províncias para que surja um índice com um forte consenso. É preciso fazer um novo levantamento do gasto dos argentinos, que variou significativamente graças ao bom momento econômico que vive o país há sete anos. O índice servirá para o CER e para todos os contratos do país.

Tradução: Katarina Peixoto

México: 5.397 desaparecidos durante governo Calderón

Escrito por Gianni Minà Ligado . Publicado em Mundo

Reproduzido a partir do site Carta Maior

Dan Jeremeel Fernández era um contador de 35 anos, sem antecedentes penais nem nenhum outro problema em particular. No dia 19 de dezembro de 2008 saiu em seu automóvel para se reunir com sua mãe para as festas de Natal em Torreón, estado de Coahuila, no norte do país. Nunca chegou. Desde então, sua mãe Yolanda Morán está procurando-o. Durante sua busca teve que passar por múltiplas vicissitudes comuns a todas as mães de desaparecidos do continente: levantar de ombros, explicações insultuosas, extorsões.

Milhares de mães do México que não interessam aos meios de comunicação internacionais encontram-se como Yolanda. Quem afirma é a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o organismo público financiado pelo Estado que se ocupa da violação dos direitos humanos, frequentemente criticada por sua cumplicidade com a política oficial, mas sem dúvida um passo adiante. Desde 2006 até hoje, ou seja, desde que o presidente Felipe Calderón declarou guerra ao narcotráfico, onde, segundo a maior parte dos observadores, o exército atua como uma das partes em conflito, 5.397 pessoas teriam simplesmente desaparecido no México. Deve-se agregar a este número 25 mil assassinados a partir do momento que o governo decidiu pela intervenção do exército. Ao todo, já são cerca de 40 mil vítimas de uma guerra negada de nosso tempo.

Pelos desaparecidos mexicanos – dois terços homens, quase sempre jovens, e um terço mulheres – ninguém jamais pediu resgate. São pessoas desaparecidas no nada em uma série de circunstâncias diferentes, mas que podem ser reduzidas a algumas poucas categorias típicas. Parte delas foi sequestrada na rua. Alguns, mas certamente não todos, tinham provavelmente um papel menor em algum cartel. Outros simplesmente desapareceram e a quantidade de jovens trabalhadores sem nenhum vínculo conhecido com organizações criminosas, sobre os quais ninguém tem notícia, vem apresentando forte aumento.

O destino de quase todos eles foi a morte, mas nega-se o luto a seus familiares. Yolanda, assim como provavelmente tantas outras mães, prefere imaginar que seu filho esteja trabalhando para os cartéis do que tenha simplesmente desaparecido. Em 2009, um membro do cartel dos irmãos Arellano Felix confessou que havia dissolvido em ácido pelo menos a 300 pessoas. Em outros casos foram encontradas fossas comuns, como a descoberta em Taxco, estado de Guerrero, com 55 corpos de pessoas assassinadas pelos cartéis. Em um país onde fazer com que se encontre o cadáver do inimigo assassinado, frequentemente após horríveis torturas, é parte da política dos carretéis, o desaparecimento de pessoas é uma variação sobre o mesmo tema.

As suas desaparições têm a mesma função codificada que tinham na Operação Condor: tortura permanente dos familiares, advertência, terror. É uma advertência que se estende à toda a sociedade civil: um terrorismo no qual não é fácil identificar a linha divisória – que, no entanto, existe – entre as organizações criminosas e o terrorismo de Estado propriamente dito. A ONU apoia as estimativas de várias organizações não governamentais que consideram que um número crescente de desaparecidos está na conta do exército federal.

Com 50 mil homens ocupando militarmente muitos estados do país, quase sempre participando ativamente do tráfico de drogas, além de extorqui-lo, praticar estupros e outros crimes é fácil pagar com a vida por uma palavra equivocada, uma propina não paga, ter visto algo que não se deveria ter visto. A CNDH teria poder de investigar todos os casos de violação dos direitos humanos nos quais se suspeita de envolvimento de órgãos do Estado, incluindo a polícia e o exército. A falta de fundos, o medo e a falta ou desaparição de provas, fazem com que tal poder seja somente virtual.

Fonte: http://www.giannimina-latinoamerica.it/archivio-notizie/658-messico-da-quando-calderon-e-presidente-5397-desaparecidos

Tradução: Katarina Peixoto

Multidão protesta em Londres contra cortes nos serviços públicos

Escrito por Caroline Santos Ligado . Publicado em Mundo

Publicado originalmente no site Carta Maior

Na maior manifestação popular vivida na capital britânica em uma geração, uma multidão estimada em mais de 300 mil pessoas superlotou as ruas dos quarteirões políticos mais importantes de Londres neste sábado, três dias depois de o governo anunciar o orçamento para o próximo ano fiscal, com mais de 30 bilhões de libras em cortes nos gastos públicos. A caminhada – que durou mais de cinco horas e superou de longe a expectativa inicial dos organizadores – teve como objetivo demonstrar oposição às medidas de austeridade defendidas pela coalizão governista.

A maior manifestação coordenada por um sindicato em duas décadas no país trouxe pessoas de todas as partes, em mais de 600 ônibus fretados e até mesmo trens. Estima-se que a demanda por transporte para Londres tenha superado a oferta, limitando o comparecimento dos ativistas.

“Foi fantástico”, disse Paul Nowak à reportagem de Carta Maior, sentado ao lado do palco montado no Hyde Park para abrigar o ápice do evento e o fim da marcha. O dirigente da Trades Union Congress (TUC), central sindical que organizou a manifestação, comemorava a presença de “pessoas que nunca estiveram antes em uma manifestação política em suas vidas, dizendo em uma só voz que os cortes não são a cura”.

Quem percorresse o percurso da manifestação poderia testemunhar os motivos da alegria de Nowak. Assombrosa em diversidade, a Marcha para a Alternativa era composta de aposentados a estudantes, passando por famílias empurrando carrinhos de bebê. Muitos deles tendo viajado horas para estar lá. Eram 4,5 mil policiais e seguranças contratados pela TUC, trabalhando mais para orientar o público do que para manter a ordem. “Tivemos um quarto de milhão de pessoas e quase nenhum problema”, afirmava uma postagem em uma página especial montada na internet pela polícia para se comunicar com os manifestantes.

Às 11h da manhã, uma hora antes do combinado para o início da manifestação, os organizadores enviavam mensagens pela internet pedindo que as pessoas que ainda não tinham chegado procurassem desembarcar em estações de metrô diferentes a fim de evitar aglomeração. Eram 15h30 quando os organizadores anunciaram que as últimas pessoas estavam finalmente passando pelo ponto de partida.

O peculiar senso de humor britânico permeou toda a marcha. Dois ativistas construíram uma réplica de um tanque de guerra de cerca de dois metros e meio por três. Pintaram o símbolo da paz nas laterais do carro e desfilavam, empurrando o veículo da “guerra contra os cortes” tal como Fred Flintstone e Barney Rubble, do desenho animado da Hanna-Barbera. Até música tinha a invenção, e a trilha sonora variava de temas de filmes de guerra antigos a uma sugestiva Let's Lynch The Landlord, da clássica banda punk californiana Dead Kennedys.

“Estou marchando pois acredito que esses cortes vão destruir tudo de bom que existe em nossa sociedade”, disse Harriet Bradley, professora na Universidade de Bristol, a 170 quilômetros a oeste de Londres. Sentada ao pé de um monumento para recuperar o folêgo quando a manifestação já andava a mais da metade de seu percurso, ela se mostrou feliz com o a quantia de pessoas na marcha, porém temerosa com o futuro do “estado de bem estar social que foi construído depois da guerra e que é o nosso orgulho e alegria”.

“Eu nasci em 1945, no final da guerra, então eu cresci com educação pública e gratuita, eu fui para a universidade, eu tive acesso à saúde pública por toda minha vida e tudo isso agora está indo com os planos do governo, que são um assalto ideológico à esfera pública”, afirmou Bradley. Assim como uma boa parte do público, que carregava cartazes propondo uma greve geral, Bradley acredita que é preciso fazer mais que isso para impedir o avanço das reformas conservadoras.

Sam (que não forneceu o sobrenome), um norte-americano aposentado que mora em Liverpool e milita no Keep Our NHS Public (Mantenha o nosso Sistema Nacional de Saúde Público), segurava uma faixa em defesa do sistema de saúde britânico. “Eu sei como é quando o sistema público de saúde é destruido”, disse. “O NHS foi uma das grandes conquistas do últimos 100 anos e a idéia de os serviços de saúde serem providenciados através do mercado é uma besteira completa – eu desafio qualquer um a mostrar evidências de que o mercado pode fornecer um serviço melhor do que o setor público”, diz referindo-se ao sistema no seu país natal.

Sam acredita que os movimentos populares estão começando a se organizar e essa é a única solução possível para pressionar o governo a mudar os planos de privatização do sistema de saúde.

Ele vê uma relação entre os movimentos populares que começam a se manifestar nos EUA e na Inglaterra, muito em função do que ele considera uma postura do Partido Trabalhista (Grã-Bretanha) e do Partido Democrata (EUA) de virar as costas para o povo.

Certamente uma opinião não compartilhada pelo líder dos trabalhistas, o oposicionista Ed Miliband, Ele subiu ao palco no Hyde Park para um discurso e atacou o governo. “Sabemos o que o governo vai dizer: que essa é a marcha da minoria. Eles estão errados”. Miliband, assim como boa parte da manifestação, usou de uma expressão cunhada pelo primeiro ministro para descrever o que irá substituir os serviços públicos quando eles se forem – A Grande Sociedade, composta por pessoas das comunidades em trabalhos voluntários.

“Vocês queriam criar a “grande sociedade” - essa é a grande sociedade. A grande sociedade unida contra o que esse governo está fazendo nesse país”.

A manifestação, pacífica em sua grande maioria, parecia estar pronta para um desfecho perfeito por volta do final da tarde. Manchetes de jornais estariam todas disponíveis para o dia em que a política voltou às ruas de Londres. Os problemas porém vieram. E embora não tenham relação com a marcha da TUC, certamente roubaram as grandes manchetes que os ativistas já podiam antever quando o mar de descontentamento pacífico inundou as ruas do West End de Londres a partir de Embankment.

Ativistas que organizaram manifestações paralelas se reuniram no centro comercial londrino, a rua Oxford. Por volta das 15h, a concentração era tamanha que algumas das lojas que foram alvos de ativistas no passado resolveram fechar as portas temporariamente. Pouco mais de uma hora depois, funcionários seriam liberados de lojas como Top Shop, que haviam dado o dia como encerrado, diante de milhares de anarquistas e estudantes concentrados na região.

Algumas lojas tiveram vidros quebrados e foram atacadas com tinta. Manifestantes da UK Unkut invadiram a Fortnum and Mason, uma luxuosa loja de departamentos próximo a Picadilly. Cantando palavras de ordem e exigindo que a empresa contribuisse com mais impostos para a sociedade inglesa, a UK Uncut obrigou a loja a fechar as portas. Embora aleguem não ter destruido nada, alguns manifestantes foram presos pelo batalhão de choque que os esperava na porta.

“Isso não tem nada a ver com a marcha”, disse Nowak, defendendo a manifestação pacifica. “Esse foi um evento onde as pessoas trouxeram as suas famílias”.

Perto da meia noite, a BBC ainda transmitia ao vivo da praça Trafalgar, onde uma centena de manifestantes ainda estava reunida e policiais agiam para retirá-los do local. Ao todo, ao longo do dia, mais de 200 manifestantes foram presos.



Fotos: Wilson Sobrinho