Depois de 30 anos no poder, presidente do Egito renuncia ao cargo

Escrito por Alex Rodrigues e Renata Giraldi - Agência Brasil Ligado . Publicado em Mundo

 

LatuffEgito2011Brasília - Depois de 18 dias de protesto contra o governo do Egito, o presidente do país, Hosni Mubarak, de 82 anos, renunciou hoje (11) ao cargo. Ele passou quase três décadas no poder. A decisão foi anunciada em um comunicado na rede estatal de televisão.

Após o anúncio de Mubarak, os manifestantes reunidos na Praça Tahrir, que virou uma espécie de símbolo para as manifestações no Egito, e em vários locais do país comemoraram. Os manifestantes prometeram intensificar os protestos, caso Mubarak insistisse em se manter no cargo.

Autoridades egípcias confirmaram que Mubarak e a família deixaram o Cairo, pela manhã, em direção ao resort de Charm el-Cheikh, no Mar Vermelho. O resort fica a 250 quilômetros do Cairo. Helicópteros foram vistos deixando a residência oficial do presidente na manhã desta sexta-feira.

Em Brasília, a Embaixada do Egito no Brasil informou que não prestará esclarecimentos sobre a renúncia de Mubarak nem sobre como será o funcionamento do governo provisório. De acordo com a assessoria da representação diplomática, se houver algum tipo de manifestação, ela será feita por meio de comunicado enviado aos veículos de imprensa por e-mail.

Nos 18 dias de protestos contra Mubarak, a embaixada se manifestou em uma ocasião – em uma nota, na qual pediu desculpas ao governo brasileiro pelo tratamento dispensado pelas autoridades egípcias aos repórteres Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Costa, da TV Brasil. Corban e Gilvan foram presos por 18 horas, tiveram os olhos vendados e os equipamentos apreendidos.

Depois do pedido formal de desculpas, o governo brasileiro decidiu não apresentar uma nota de protesto ao Egito. O embaixador do Brasil no país, Cesario Melantonio Neto, chegou a elaborar uma proposta de queixa formal ao governo egípcio.

*Com informações da Agência Lusa // A matéria foi ampliada às 14h31

Edição: Juliana Andrade
Charge: Latuff

Tunísia, Egito, Marrocos...Essas “ditaduras amigas”

Escrito por Ignacio Ramonet - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?

“Não havíamos apreciado em sua justa medida...” Em 23 anos...Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país...Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência...) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio...Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação... Democracia ruinosa...

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.

Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.

Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).

Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.

A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.

Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.

No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).

Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

NOTAS

(1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher "La société tunisienne privée de parole" e de Ignacio Ramonet "Main de fer en Tunisie", Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente.

(2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.

(3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.

(4) http://www.medelu.org/spip.php?article711

(5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843.

(6) Ler Ignacio Ramonet, "La poudrière Maroc", Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111

(7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.

(8) El País, 30 de janeiro de 2011- http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

(9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011 http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, "Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise", Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret...188096
http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Os militares e o futuro do Egito

Escrito por Reginaldo Nasser - Carta Maior Ligado . Publicado em Mundo

Egito

As forças armadas têm sido a força dominante no Egito desde a queda da Monarquia em 1952: os presidentes Nasser, Sadat e Mubarak são todos eles representantes do estamento militar. Considerados uma das forças mais poderosas do mundo (10º lugar) contam com um contingente de 468.000 militares e 3.4% do PIB do Egito. O setor militar do Egito recebeu nas últimas três décadas cerca de 30 bilhões de dólares em ajuda dos EUA, além de enviar seus oficiais para estudar em colégios militares norte-americanos. Os militares egípcios são essencialmente uma criação dos EUA. O artigo é de Reginaldo Nasser.

Os principais jornais e analistas do ocidente têm falado cada vez mais na conveniência de em se adotar um “modelo turco” no Egito, em que militares atuariam de forma a conter o radicalismo islâmico dentro de um modelo constitucional. Tornou-se freqüente nos últimos dias ouvir a avaliação de que os militares têm sido uma força fundamental para manter a calma e a estabilidade nessa crise e espera-se que cumpram um papel crucial na transição que se anuncia.

As forças armadas têm sido a força dominante no Egito desde a queda da Monarquia em 1952: os presidentes Nasser, Sadat e Mubarak são todos eles representantes do estamento militar. Considerados uma das forças mais poderosas do mundo (10º lugar) contam com um contingente de 468.000 militares e 3.4% do PIB do Egito. O setor militar do Egito recebeu nas últimas três décadas cerca de 30 bilhões de dólares em ajuda dos EUA, além de enviar seus oficiais para estudar em colégios militares norte-americanos. A popularidade do exército tornou-se ainda mais crucial, quando o, ainda presidente Mubarak, após dissolver seu governo – e lançar as bases para uma possível transição recorreu aos militares, esperando com isso que a sua reputação pudesse encobrir a própria legitimidade perdida.

Os militares egípcios são essencialmente uma criação dos EUA não apenas devido aos bilhões de dólares em armas e equipamentos de segurança, mas, sobretudo, devido à lógica que preside a relação entre eles. Documentos do Departamento de Estado 2009, divulgados pela WikiLeaks , descrevem um encontro entre um general dos EUA e os seus colegas egípcios, tratando de suas relações diplomáticas: “O presidente Mubarak e seus líderes militares vêm o nosso programa de assistência militar, como a pedra angular da nossa relação e consideram os bilhões de dólares como compensação intocável para fazer e manter a paz com Israel e em troca os militares dos EUA gozam de prioridade de acesso ao Canal de Suez e do espaço aéreo egípcio”.

Sim, é verdade que os militares querem a estabilidade, mas a desejam, principalmente, porque não querem perder os privilégios que desfrutam devido ao papel único que desempenham na economia egípcia. De acordo com um dos maiores especialistas sobre Egito, Robert Springborg (US Naval Postgraduate School), as atividades econômicas dos militares têm expandido consideravelmente ao longo das décadas. O militar egípcio está presente em praticamente todos os setores econômicos do país, numa lista que vai da montagem de automóveis, construção de rodovias e pontes até a distribuição de gás, comércio de vestuários e utensílios domésticos, e acionistas em grandes empreendimentos turísticos. Ninguém sabe ao certo, mas segundo algumas estimativas os militares chegam a controlar por volta de 30% da economia do país. A carreira militar tornou-se também um meio de promoção social, onde homens de famílias pobres podem ganhar prestígio e se juntar à classe média alta.

Uma dos poucas informações que temos sobre o papel dos militares egípcios na economia apareceu em documentos de 2008 tornados públicos pelo WikiLeaks e pode ajudar-nos a compreender para onde vai o Egito. O autor anônimo discute os vários negócios em que os militares estão envolvidos, e avalia como reagiriam, caso o atual presidente, Hosni Mubarak, fosse deposto. Muito provavelmente, diz o autor, os militares se reuniriam em torno do sucessor, desde que não houvesse interferências em seus negócios, mas, adverte que é difícil prever as ações dos militares em um cenário mais confuso. O certo é que os militares egípcios não têm interesse em qualquer tipo de projeção de poder, e seus objetivos principais são, principalmente, garantir a sobrevivência do regime e proteger as fronteiras do país. Nos últimos dois anos, a recessão global revelou um novo cenário para o consenso das elites egípcias refletindo no equilíbrio existente dentro do partido do governo entre a “nova guarda” representada pela elite empresarial neoliberal e a velha guarda, composta por setores da burocracia. Muito embora a maioria dos militares compartilhe com a ideologia da velha guarda, sempre se mantiveram fora da luta pelo poder zelando pela estabilidade; No entanto, esses momentos de crise poderiam despertar ambições individuais dentro das Forças Armadas em relação à presidência da república.

Para além das particularidades que poderiam diferenciar os regimes políticos repressivos, e as causas que definem os atuais conflitos nos países que compõem o mundo árabe; todos eles formam, na essência, um conjunto de governos sujeitos à mesma lógica militar que se articula nos níveis regional e internacional (democracias ocidentais). A velha ordem no Oriente Médio está se desintegrando, mas é preciso estar muito atento ao rumo que deverá tomar o Egito. Assim como a revolução dos oficiais na década de 1950 que derrubou a monarquia árabe apoiada pelas potências coloniais, a revolução de 2011 pode, da mesma forma, retirar tiranos do governo, mantendo intacta a estrutura de poder do Estado sob as vestes de uma nova democracia. Não resta a menor dúvida que o personagem principal dessa tragédia é um grande problema, mas obviamente não é maior do que o caráter do regime que se quer preservar.

(*) Professor de Relações Internacionais da PUC-SP



Fotos: Matthew Cassel/Eletronic Intifada (http://electronicintifada.net/v2/article11783.shtml)

"Isso \u00e9 obra de Mubarak"

Escrito por Robert Fisk - Página/12 Ligado . Publicado em Mundo

A contra revolução do presidente Hosni Mubarak entrou em choque ontem com seus oponentes em meio a uma chuva de pedras, paus e barras de ferro, em uma batalha que durou todo o dia no centro da capital que ele afirma governar entre dezenas de milhares de jovens que – e aqui está a mais perigosa das armas – brandiam a bandeira do Egito no rosto de seus adversários.

A luta ao meu redor na praça Tahrir era tão terrível que podíamos sentir o cheiro do sangue. Os homens e mulheres que estão exigindo o fim da ditadura de 30 anos de Mubarak – vi jovens mulheres arrancando pedras do pavimento enquanto caíam rochas ao seu redor – lutavam com imensa coragem que, mais tarde, se converteu em uma crueldade terrível. Ao final, o governo informou que houve 3 mortos e 637 feridos; segundo a cadeia Al Jazeera os feridos chegavam a 1500.

Alguns arrastavam homens de segurança de Mubarak pela praça, golpeando-os até que o sangue saído de suas cabeças tingisse sua roupa. O Terceiro Exército egípcio, famoso por cruzar o Canal de Suez em 1973, não pode – ou não quis – sequer cruzar a praça Tahrir para ajudar os feridos. Milhares de egípcios gritavam – e isso é o mais próximo de uma guerra civil –, lançavam-se uns contra os outros como lutadores romanos, e simplesmente empurraram as unidades de paraquedistas que “vigiavam” a praça para cima de seus tanques e veículos blindados que logo acabaram sendo usados como escudo de proteção.

Um comandante de tanque Abrams – e eu estava somente a três metros dele – simplesmente se esquivou das pedras que ricocheteavam no tanque, saltou para dentro do veículo e fechou a escotilha. Os partidários de Mubarak subiram então no tanque para atirar mais pedras contra seus jovens e enlouquecidos antagonistas.

Suponho que é o mesmo em todas as batalhas, ainda que (ainda) não tenham aparecido as armas; o abuso de ambos os lados provocou uma chuva de pedras dos homens de Mubarak – sim, eles começaram – e logo os manifestantes que tomaram a praça para pedir a saída do ancião começaram a quebrar o pavimento e atirar as pedras de volta.

Quando cheguei à “linha de frente”, ambos os bandos estavam gritando e atacando-se entre si, o sangue corria por seus rostos. Em um certo momento, antes que passasse o choque do ataque, os partidários de Mubarak quase cruzaram toda a praça em frente ao monstruoso edifício Mugamma – uma relíquia do esforço nasserista – antes de serem rechaçados.

Agora que os egípcios estão lutando contra os egípcios, como devemos chamar a esta gente perigosamente furiosa? Os mubarakistas? Os “manifestantes” ou, de maneira mais inquietante, a “resistência”? Por que é assim que se chamam a si mesmos os homens e mulheres que estão lutando para derrotar Mubarak. “Isso é obra de Mubarak”, disse-me um atirador de pedras ferido. “Ele conseguiu que os egípcios se voltassem uns contra os outros por apenas nove meses mais de poder. Está louco. Vocês do Ocidente também estão loucos?”

Não recordo como respondi a pergunta. Mas como poderia me esquecer de ter visto, umas poucas horas antes, o “especialista” em Oriente Médio, Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, responder a pergunta “Mubarak é um ditador”, da seguinte forma: “Não, é uma figura de estilo monárquico”.

A imagem do rosto deste monarca era levada em cartazes gigantes, uma provocação impressa, para as barricadas. Distribuídos pelos funcionários do Partido Nacional Democrático (PND), muitos eram levados por homens que portavam distintivos e cassetetes da polícia. Não havia dúvida sobre isso porque eu tinha dirigido desde o deserto até o Cairo, enquanto eles se organizavam em frente ao Ministério do Exterior e do edifício da rádio estatal, na margem oeste do Nilo. Havia alto falantes ligados com canções e chamados de vida eterna para Mubarak (uma presidência muito longa, por certo) e muitos estavam sentados em novas motocicletas, como se estivessem inspirados nos capangas de Mahmud Ahmadinejad depois das eleições iranianas de 2009.

Só quando passei o edifício da rádio é que vi milhares de jovens homens entrando desde os subúrbios do Cairo. Havia mulheres também, a maioria vestia o tradicional traje negro; algumas poucas crianças entre elas, caminhando por trás do Museu Egípcio. Disseram-me eu tinham tanto direito a estar na praça Tahrir como os manifestantes e que tentavam expressar seu amor por seu presidente no lugar onde ele havia sido tão profanado.

E tinham razão, suponho. Os democratas – ou a “resistência”, dependendo do ponto de vista – tinham expulsado os homens das forças de segurança desta mesma praça na semana passada. O problema é que os homens de Mubarak incluem alguns dos mesmos capangas que eu vi então, quando estavam trabalhando com a polícia de segurança armada para atacar os manifestantes. Um deles, um jovem de camisa amarela, cabelo revolto e olhos brilhantes avermelhados, levava a mesma barra de ferro que usava na semana passada. Uma vez mais, os defensores de Mubarak estavam de volta. Até cantavam o mesmo velho refrão: “Com nosso sangue, com nossa alma, a vós nos dedicamos”.

Caminhei ao lado das fileiras de Mubarak e cheguei à frente quando eles começaram outro ataque à praça Tahrir. O céu estava cheio de pedras. Estou falando de pedras de 15 centímetros de diâmetros, que golpeavam o terreno como peças de morteiro. Deste lado da “linha” chegavam os opositores de Mubarak. Eles se dividam e golpeavam as paredes ao nosso redor. Neste ponto, os homens do governo voltaram e correram em estado de pânico enquanto os opositores do presidente os empurravam para frente. Fiquei parado de costas para a janela de uma agência de viagens fechada – lembro um cartaz para um fim de semana romântico em Luxor e no “Vale das Tumbas”. Mas as pedras caíam como chuva, centenas delas ao mesmo tempo, e logo um novo grupo de homens estava ao meu lado, eram os manifestantes egípcios da praça. Mas em sua fúria já não gritavam “Abaixo Mubarak” e “Mubarak Negro”, mas sim “Alá Akbar” – Deus é grande –, grito que escutei seguidamente a medida que o dia avançava.

Um lado gritava Mubarak, o outro Deus. Não tinha sido assim 24 horas antes. Dirige-me para um terreno mais seguro, onde as pedras já não estouravam e fique entre os opositores de Mubarak.

Seria exagerado dizer que as pedras obscureceram o céu, mas por momentos havia centenas de pedras voando pelo céu. Destroçaram totalmente um caminhão do exército, quebrando as janelas e suas laterais. As pedras partiam das ruas paralelas à rua Campollion e de Talaat Harb. Os homens estavam suando, com faixas ensaguentadas na cabeça, gritando seu ódio. Muitos traziam trapos brancos nos ferimentos. Alguns eram levados derramando sangue por toda a rua.

E um incrível número usava o traje islamista, calças curtas, sacolas cinzas, largas barbas e gorros brancos. Gritavam Alá Akbar mais forte e bradavam seu amor a Deus. Sim, Mubarak conseguiu a proeza. Colocou os salafistas contra ele, junto a seus inimigos políticos. Volta e meia agarravam alguns jovens, tinham os rostos inchados de socos e gritavam temendo por suas vidas. A documentação encontrada em suas roupas provava que trabalhavam para o Ministério do Interior de Mubarak.

Muitos dos manifestantes – jovens seculares, abrindo caminho entre os atacantes – tratavam de defender os prisioneiros. Outros – e eu vi um monte de “islamistas” entre eles -, davam socos nas cabeças destes pobres homens, usando grandes anéis em seus dedos para cortar a pele e fazer o sangue escorrer por seus rostos. Um jovem, com uma camiseta vermelha rasgada, e o rosto inchado de dor, foi resgatado por dois homens fortes, um dos quais o colocou, quase sem roupa, sobre seu ombro, abrindo caminho entre a multidão.

Assim se salvou a vida de Mohamed Abdul Azim Mabrouk Eid, policial de segurança número 2.101.074, do governo de Gizé – seu passe de segurança era azul com três pirâmides estampadas. Outro homem foi resgatado da multidão enfurecida, agarrando-se o estômago. E por trás de um esquadrão de mulheres, chovia pedras.

Houve momentos de farsa em meio a tudo isso. Na metade da tarde, quatro cavalos montados por partidários de Mubarak entraram na praça, junto com um camelo – sim, um camelo verdadeiro que deve ter sido trazido das pirâmides. Seus jóqueis, aparentemente drogados, estavam caindo. Três horas mais tarde, encontrei os cavalos pastando ao lado de uma árvore. Perto da estátua de Talaat Harb, um menino vendia Agwa – um delicioso pão egípcio -, enquanto do outro lado da rua estavam paradas duas figuras, uma menina e um menino, segurando bandejas de papelão idênticas. A bandeja da menina estava cheia de pacotes de cigarro. A do menino, estava cheia de pedras.

Houve cenas que devem ter provocado dor pessoal e angústia para aqueles que as experimentaram. Havia um homem alto, musculoso, ferido no rosto por uma pedra, cujas pernas se dobravam ao lado de uma cabine de telefone. E o soldado do veículo blindado que deixou que as pedras voassem ao seu lado até que saltou para a rua junto com os inimigos de Mubarak, abraçando-se a eles, enquanto as lágrimas corriam por seu rosto.

Não sei realmente quem ganhou a batalha da praça Tahrir ontem. Ao entardecer, as pedras ainda golpeavam as ruas e as pessoas. Depois de um tempo, comecei a me agachar quando vi passar dois pássaros.

Tradução: Katarina Peixoto


Fotos: Huffington Post

O fator Fraternidade Muçulmana

Escrito por Pepe Escobar - Asia Times Online Ligado . Publicado em Mundo

Um milhão em marcha pelas ruas do Cairo nessa 3ª-feira, outro milhão em marcha rumo ao palácio presidencial em Heliópolis na próxima “6ª-feira da Partida”. O principal graffiti – escrito também nos tanque Abrams cor caqui, fabricados nos EUA – ainda é “queremos derrubar o sistema”. O exército parece ter escolhido lado, afirmando sempre que “não recorreremos ao uso da força contra nosso grande povo egípcio”.

Com o preço do barril de óleo ultrapassando a barreira dos US$100 pela primeira vez desde setembro de 2008; o medo cada vez maior de que se interrompa o fluxo de petroleiros pelo Canal de Suez; bancos, escolas e a Bolsa de Valores fechados; comitês populares encarregados da segurança da cidade; policiais queimando os próprios uniformes e unindo-se aos manifestantes; e piquetes de ativistas, manifestantes e blogueiros escrevendo furiosamente em bancadas e bancadas de laptops para distribuir notícias ao mundo (antes de o governo do presidente Hosni Mubarak ter “valentemente” derrubado o último provedor de serviços de internet que ainda funcionava), a revolução egípcia parece aproximar-se do último tempo do jogo.

A estratégia do Faraó e de seu “sucessor” Omar (o “torturador suave”) Suleiman é usar o exército para intimidar, e depois demonstrar que a rua só conseguirá tingir de sangue o Nilo. Não me parece provável. Mas, sim, essa ditadura militar cruel fará qualquer coisa para manter-se agarrada ao poder.

Como a rua multiforme do Egito vê a questão, não se trata hoje, como o Wall Street Journal escreve pitorescamente, de “é possível que a fase atual se revele momento feliz para Washington”. As massas da Praça Tahrir (Praça Libertação) que protestam com seus corpos e a própria vida, não poderiam estar menos preocupadas com os EUA – como tampouco estão preocupadas com o tráfego de superpetroleiros para abastecer o ocidente ou com a segurança de Israel. Aqui se trata de Egito, não de EUA.

No domingo, o presidente dos EUA Barack Obama falou frouxamente de uma “reforma no governo do Egito” – contra a multidão que grita “abaixo o ditador”. Al-Jazeera teve de escrever editorial para lembrar as pessoas de que, por definição, a palavra “reforma” que Obama usara não significa nem jamais significará manter lá o mesmo regime corrupto e repressivo, passado só por rápido banho de loja.

A situação aqui é de revolução clássica; os poucos que permanecem no topo do governo já não conseguem, como antes, impor sua vontade; os muitos que sempre viveram por baixo recusam-se a continuar dominados como antes. Infinitamente intrigadas, confusas, Washington e capitais européias podem, no máximo, como vocalistas minimalistas, fazer corinho para o som e a fúria que vêm das ruas. As ruas querem vida política e institucional confiável e querem conseguir viver com decência em ambiente menos corrompido. E isso já de provou impossível sob as velhas imutáveis regras do jogo – o sistema do “nosso” ditador apoiado pelo ocidente industrializado.

Entre outras tolas teorias de conspiração, de que a revolução egípcia seria financiada pelo lobby judeu, pela CIA-EUA, pelo financista George Soros ou por todos os supracitados, a rua egípcia prossegue como se essas entidades sequer existissem, sem querer saber se o Faraó decidirá a favor ou contra “conduzir uma transição ordeira”. A rua só sossegará com passagem só de ida para Mubarak, para talvez abraçar seus amigos da Casa de Saud. Especialmente agora que a rua já viu que, com Suleiman, Mubarak tenta fazer-se de Xá do Irã em 1978 – quando nomeou Shapour Bakhtiar primeiro-ministro (e não funcionou).

Pergunte à Esfinge

O complexo caminho à frente aponta para uma aliança civil no Egito, de todos os setores que se opõem ao regime (praticamente todos os habitantes do país) e o componente inevitável, o exército. Enquanto isso, setores do establishment em Washington e a mídia-empresa nos EUA não param de repetir freneticamente que não há condições objetivas para que os radicais islâmicos cheguem ao poder. Bobagens e só bobagens.

Washington parece estar a um passo de dar luz verde para Mohamed ElBaradei – apoiado pela Fraternidade Muçulmana, esse, sim, fator crucial. Pois nem a Esfinge de Gizé é capaz de adivinhar se tudo isso bastará para satisfazer a rua.

ElBaradei é elemento de fora, e confiável. Permaneceu fora do país durante os anos mais duros do governo do Faraó. Não é arrivista e defendeu estoicamente suas posições a favor do Irã e contra o governo de George W Bush, na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica. ElBaradei, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2005, pode, sim, emergir como uma “ponte”, até que se organizem eleições livres e justas, nova Constituição e nova ordem no Egito.

Mas nada sugere que ElBaradei venha a implantar política econômica muito diferente da que pregam o Fundo Monetário Internacional/Banco Mundial, a conversa fiada do “ajuste estrutural”, com privatizações as mais ensandecidas, temperadas com o vago mantra de Davos, “a boa governança”. Se a coisa tomar esse rumo, o mais provável é que a rua de enfureça de verdade – outra vez.

Por enquanto, não há qualquer sinal de que o Egito venha a seguir o caminho do Irã em 1979. No Irã, a esquerda secular encarregou-se do governo pós-revolucionário; no Egito, a esquerda foi dizimada pela repressão. O Irã só se tornou república islâmica meses depois da revolução, depois de um referendo nacional (se houver referendo no Egito, as massas egípcias votarão por república secular). O cenário mais provável e mais positivo é que, para 2012, o Egito aproxime-se mais, em termos políticos, da Turquia.

Com o quê chegamos à questão mais quente e mais distante de qualquer resposta, que pode incinerar todas as demais questões quentes: qual será o papel pós-revolucionário da Fraternidade Muçulmana [ing. Muslim Brotherhood (MB); em português, também Irmandade Muçulmana]?

Resgatar os irmãos[1]

A Fraternidade Muçulmana gera medo pânico em todo o ocidente, porque o governo de Mubarak sempre apresentou os “irmãos” como se fossem idênticos à al-Qaeda. Não há sandice maior.

A Fraternidade Muçulmana foi fundada por Hasan al-Banna no porto de Ismailia em 1928 – depois se transferiu para o Cairo. A preocupação inicial foi oferecer serviços sociais, construir mesquitas, escolas e hospitais. Ao longo das últimas décadas, a Fraternidade Muçulmana tornou-se a mais importante força política fundamentalista do mundo sunita. É também o maior partido dissidente do Egito, ocupando 88 dos 454 assentos na Câmara baixa do Parlamento.

A Fraternidade Muçulmana não prega nem apoia a violência – embora tenha-o feito no passado, até os anos 1970s. A aura de violência está relacionada ao legendário Sayyid Qutb, que muitos consideram o pai espiritual da al-Qaeda. Qutb, crítico de literatura que estudou nos EUA, ligou-se à Fraternidade Muçulmana em 1951 e separou-se dela anos depois.

As ideias de Qutb eram radicalmente diferentes das de al-Banna – sobretudo seu conceito de “vanguarda”, mais próximo das ideias de Lênin que do Corão. Para ele, a democracia parlamentar seria “um fracasso” no mundo islâmico (ao contrário do que pensa a maioria dos egípcios hoje, que lutam por democracia; além disso, a Fraternidade Muçulmana hoje é participante ativa da sociedade civil e política.) Qutb não é sequer considerado pensador islâmico moderno influente; o Islã político hegemônico hoje, personificado na autoridade do imã de al-Azhar no Cairo, refutou impiedosamente o pensamento de Qutb.

Ao contrário do que diz a propaganda dos neoconservadores dos EUA, a Fraternidade Muçulmana nada tem a ver com os movimentos fascistas dos anos 1930s na Europa, nem com os partidos socialistas (são, de fato, defensores da propriedade privada). Trata-se, sobretudo, de movimento nativista urbano, da classe média baixa, como o define o professor Juan Cole da Universidade de Michigan. Mesmo antes da revolução, a Fraternidade Muçulmana já pregava a derrubada do governo Mubarak, mas por vias políticas pacíficas.

A Fraternidade Muçulmana no Iraque, fundada nos anos 1930s em Mosul, é hoje o Partido Iraquiano Islâmico, ator político importante que sempre dialogou com Washington. E no Afeganistão, o Partido Jamiat-I Islami nasceu por inspiração da Fraternidade Muçulmana.

A Fraternidade Muçulmana, é claro, não rejeita nem a tecnologia nem a inovação tecnológica.

Pode ser vista praticamente por todos os cantos nas ruas da revolução egípcia, mas sempre em atitude cuidadosa e discreta, para evitar o efeito de mostrar-se “na cara deles”. Segundo o porta-voz Gamel Nasser, a Fraternidade Muçulmana vê-se como um setor, dentre vários outros, da revolução egípcia. E a revolução tem a ver com o futuro do Egito – não do Islã.

Há quem argumente mais uma vez que isso foi o que os mulás disseram em Teerã em 1978/1979. O xá foi deposto, de fato, por virtualmente todos os setores da sociedade, inclusive o Partido Comunista. Depois os teocratas assumiram o controle – com violência. Se se considera a tradição de três décadas, nada autoriza a supor que a Fraternidade Muçulmana possa tentar movimento semelhante àquele.

É difícil para que viva longe daqui imaginar a brutalidade da máquina de repressão policial/de Estado do governo de Mubarak. O sistema depende de 1,5 milhão de policiais – quatro vezes o número de soldados do exército. Os salários desses policiais são pagos, em grande parte, com o 1,3 bilhão de dólares da “ajuda” que Mubarak recebe dos EUA, e a máquina é usada com extrema brutalidade contra operários e praticamente toda a qualquer organização progressista.

Esse estado de coisas já existia bem antes de Mubarak. A história terá de interrogar diretamente o fantasma do ex-presidente Anwar Sadat. Sadat construiu uma trifeta, para fazer funcionar suas políticas de intifah: o FMI ajudou-o a construir uma economia exportadora rudimentar; Sadat manipulou a religião, para obter fundos da Arábia Saudita para atacar a Fraternidade Muçulmana; e recebeu bilhões dos EUA para negociar acordos com Israel. A principal consequência inevitável disso tudo foi um estado policial tamanho mamute, dedicado, dentre outras ações repressivas, a destruir totalmente os sindicatos e todas as organizações de trabalhadores.

Eis o antídoto contra al-Qaeda

Embora tenha sido violentamente combatida durante as décadas dos governos Sadat/Mubarak, a Fraternidade Muçulmana conseguiu, pelo menos, uma estrutura. Em eleições livres e justas, não há quem duvide que a Fraternidade Muçulmana receberia, no mínimo, 30% dos votos.

A mídia-empresa global só fez, até agora, visitar a sede da Fraternidade Muçulmana no Cairo, em El Malek El Saleh. O novo presidente da Fraternidade Muçulmana, Mohammed Badie, é homem que se preocupa menos com a arena política e mais com a arena social. Quanto à possibilidade de o Egito vir a transformar-se em Estado islâmico, Badie insiste que, se acontecer, será “pelo desejo do povo”.

Diferente de Badie, Sherif Abul Magd, engenheiro e professor da Universidade Helwan, e presidente da Fraternidade Muçulmana em Gizé, falou mais, mais eloquentemente, ao jornal italiano La Stampa. Tomou o cuidado de repetir que os manifestantes não devem antagonizar os militares. E enfatizou: “Nosso povo já controla as ruas.”

De importante, delineou a estratégia da Fraternidade Muçulmana para o estágio seguinte: além de um primeiro-ministro interino, deve haver cinco juízes nomeados para constituir uma comissão presidencial encarregada de revisar a Constituição e, isso feito, convocar eleições para o Parlamento e a Presidência.

Magd foi claro: “Não há conflito entre Estado islâmico e democracia – mas a decisão é direito do povo”. Washington sabe disso, mas muito a assusta a ideia de que, qualquer que seja a democracia ou o governo, islâmico ou não, no Egito, a Fraternidade Muçulmana não acredita no velho famoso cadáver político conhecido como “processo de paz Israel-palestinos”. Para a Fraternidade Muçulmana, “não há paz possível sem acordo com o Hamás”.

E sobre a al-Qaeda: “A al-Qaeda, hoje, é invenção da CIA para justificar a guerra ao terror”. Em termos estratégicos, a Fraternidade Muçulmana percebeu que seria contraproducente expor-se agora. Mais adiante, a história será outra.

A rua árabe sabe – e em larga medida aprova – que a Fraternidade Muçulmana sempre se opôs aos acordos de Camp David de 1978; e que não reconhece Israel.

Outro ponto crucial é que a Fraternidade Muçulmana opõe-se absoluta e completamente a qualquer tipo de violência contra civis – o que a põe em campo absolutamente oposto à al-Qaeda. Uma Fraternidade Muçulmana que refute a violência e seja ativa nas políticas civis no Egito de modo algum assustará o ocidente. E, partido político estabelecido do Islã político, a Fraternidade Muçulmana pode ser o melhor antídoto contra os fanáticos à moda al-Qaeda.

Ao contrário do que cantam as sereias alarmistas da direita, não há nenhum tipo de “fervor islâmico” crescendo no Oriente Médio. A verdade é exatamente o contrário – o que se vê no momento é muita torpeza moral e, para piorar, do lado errado da história.

A posição de Israel é autoexplicativa – do Jerusalem Post descrevendo a revolução egípcia como “o pior desastre desde a revolução iraniana”, a um colunista do Ha'aretz que protesta contra Obama, que teria “traído um presidente egípcio moderado que sempre foi leal aos EUA e promoveu a estabilidade e a moderação”.

Quanto ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, telefonou a Mubarak para manifestar sua solidariedade e dizer o quanto lamentava a confusão; em seguida mandou seus próprios policiais atacarem palestinos que se reuniam em manifestação de apoio à democracia no Egito.

Não parece haver dúvidas de que – com a Fraternidade Muçulmana participando do governo do Egito – governo egípcio independente e soberano – o tratado de paz entre Egito e Israel será renegociado. A Fraternidade Muçulmana favorece a solução de decidir por referendo. Com o que, afinal, chegamos ao coração da questão.

Depois da revolução egípcia, os interesses de EUA e Israel deixam de convergir – e não poderão ser apresentados como convergentes nem com algum artifício de ilusão de ótica.

Mas a revolução egípcia não é revolução anti-EUA: é revolução contra um regime que os EUA apoiam. Um novo governo no Egito, governo legítimo, soberano, pós-Mubarak, não poderá apresentar-se ao mundo e aos egípcios como estado-fantoche, como governo-fantoche, de Washington – com todas as implicações regionais que daí se inferem. Esse é problema maior do que as capacidades da Fraternidade Muçulmana. Aí se ouvem ecos do coração milenar do mundo árabe, à beira, parece, de uma dramática modificação sísmica.

[1] Orig. Brothers to the Rescue (esp. Hermanos al Rescate) é organização de exilados cubanos anti-Castro, com sede em Miami, fundada em 1991. Descreve-se como ONG de finalidades humanitárias, que ajuda cubanos que queiram deixar a ilha (de http://en.wikipedia.org/wiki/Brothers_to_the_Rescue) [NTs].

Tradução: Vila Vudu

Site Carta Maior