Sensacionalismo e promoção com a dor alheia

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Cristian Góes

Análise da cobertura da imprensa da morte do governador
 

No jornalismo há algumas linhas bem tênues, que por conta dessa condição são extremamente perigosas. Uma delas é a que separa de um lado a condição humana do humano profissional, isto é, o subjetivismo, a passionalidade e os inúmeros preconceitos que carregamos e, do outro, o compromisso com o dever da verdade, com o relato mais objetivo dos acontecimentos, com o interesse público. Jornalismo é uma atividade humana e esta afirmação por si só indica toda sua complexidade.

Na cobertura de eventos dramáticos essa linha imaginária é submetida a uma prova de fogo. As cargas emocionais em jogo são tão significativas que a informação fica inevitavelmente contaminada pelos sentimentos pessoais, passionais. Muitos profissionais, por exemplo, têm dificuldades de lidar com ambientes carregados de emoção. A depender do grau de tensão, o envolvimento deles altera a abordagem dos fatos de uma forma que transforma, muitas vezes, o repórter em notícia.

Mas a emoção seria um problema ao jornalismo? Há como cobrir eventos dramáticos sufocando emoções do eu-repórter? Não, em grande medida, não. O problema não está na emoção, mas está na substituição da informação pela emoção. O pior: a exploração mercantil da emoção, conscientemente ou não. Como já dito, a linha que separa a razão da emoção é muito tênue e a emoção elevada a um grau a mais do razoável, do esperado, pode ganhar contorno de exagero, empurrando o jornalismo para o sombrio pântano do sensacionalismo.

O jornalista que se emociona numa cobertura dramática está a vivenciar sua condição humana e isso compreensível. Já o sensacionalismo se apresenta quando essa emoção é canalizada para impactar a audiência, para promover o repórter, para a empresa atrair mais audiência e vendê-la aos seus anunciantes, auferindo lucros. Isso não é natural. Jornalistas mais treinados nos objetivos empresariais, por exemplo, nem desenvolvem mais emoções. Eles já sabem selecionar e preparar um ambiente narrativo que atrai e impacta a audiência, sem envolvimento emocional nos casos.

Na cobertura da morte do governador de Sergipe Marcelo Déda muitos veículos de imprensa, além de um despreparo hitórico-crônico – muito por culpa empresarial - esqueceram sua função primordial: informar. Mesmo compreendo-se, em certa medida, a emoção que o acontecimento causou – a dramaticidade era latente -, a informação é a matéria prima do jornalismo e, não deve, em hipótese nenhuma ser apagada, desfigurada, substituída.

Infelizmente muito do que se viu e ouviu passou pelo sensacionalismo, onde o valor não estava na informação, mas na emoção com objetivo de auferir os mais variados dividendos. É claro que isso atende a outros interesses, entre eles um processo de construção mítica da personagem em questão.

Em coberturas sensacionalistas não interessa informar que alguém morreu, isso é detalhe de segunda ordem. O que importa é pegar, registrar, divulgar o choro, a dor, os sentimentos, as frases de efeito. Não é informar o mais objetivamente os fatos, o local, a data, a hora, os nomes, mas revelar fatos de bastidores que ganham ares de extraordinário. É contar os detalhes mais desprezíveis do ponto de vista da informação que em nada acrescenta, mas que pode provocar mais dor e suscitar outros sentimentos. Em razão de uma suposta concorrência entre meios, ganha quem mais promove intensamente a dor alheia e a exploração da intimidade e da cumplicidade. Faz parte disso ainda o repetitivo e enjoativo discurso comercial de exclusividade, de primeira mão, de que chegou primeiro e fez mais.

O sensacionalismo é um desvio ético, condenado pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (Fenaj, 2007), porque representa o oposto ao jornalismo; porque se aproveita das fragilidades racionais e emocionais do público para explorar comercialmente a dor e outros sentimentos, não respeitando, muitas vezes a intimidade das fontes. Não há inocência no sensacionalismo. Além de auferir lucros vendendo o público, ele também pode ser usando como ferramenta política para manipular gente através da emoção.

Como uma longa novela de péssima produção, o sensacionalismo visto na cobertura de parte da imprensa da morte do governador Marcelo Déda ainda tem muitos capítulos que serão escritos até as eleições do próximo ano, revelando os mais variados interesses políticos sujos, mesquinhos e hipócritas. Oxalá esteja completamente equivocado!

Jornalismo, jornalistas e crise de representação

Escrito por Cristian Góes Ligado . Publicado em Cristian Góes

Quando a história convoca para mudanças

Impressionante como alguns colegas jornalistas não conseguem entender (ou não querem) o porquê das ações agressivas e persistentes contra repórteres e veículos de comunicação em quase todas as manifestações pelo país. Convenhamos, não precisa muito esforço para querer entender esse fenômeno.

Primeiro, deixo bem claro meu posicionamento contundente contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência, nem as explícitas e nem as veladas. É o que penso.

As manifestações que tomam contam do país têm uma pauta muito além da redução do preço do ônibus e isso parece bem claro. No fundo, os atos apontam consistentes críticas às instituições sociais porque elas não responderiam mais as demandas, as necessidades da sociedade.

A corrupção privada e pública, a injustiça contra muitos e o grande lucro de poucos são centrais no sistema capitalista. As instituições sociais foram tomadas pelo capital e por seus interesses, estando mergulhadas até a alma nesse fosso. Nos limites do capitalismo elas esgotaram-se.

Mas que instituições sociais são essas? A Política, por exemplo, (partidos, regras e financiamentos eleitorais, participação); o Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) e sua forma de organização e financiamento; a Organização social (associações, sindicatos, entidades religiosas); o Jornalismo (imprensa).

Essas instituições têm um traço comum: a representação social. E a essência da crítica estaria aí. Esclarecendo, política, Estado, entidades civis, imprensa não mais representam de forma preponderante os interesses da maioria. Vivemos uma crise de representatividade. Isso é um fenômeno mundial e já faz tempo. O descrédito é a tônica.

Ocorre que as instituições não são entes abstratos. Elas se materializam nos homens e mulheres que as compõem e em suas atividades cotidianas. Na prática, a crise está na enorme distância entre representantes e representados, entre compromissos e realizações, entre promessas de fidelidade e ações concretas de traição, entre o discurso e a prática.

O PT, apenas para citar um exemplo, enquanto ideia de realização contribuiu imensamente para essa desesperança, à medida que inverteu significativamente à lógica da esperança depositada nele.

E a imprensa nessa história?

O jornalismo também é uma instituição social e adquire essa condição porque se comprometeu com a sociedade com o "dever da verdade", doa em quem doer. Ou não foi isso? Nós (as audiências) concedemos ao jornalismo a tarefa de representação dos interesses de todos. Acreditamos ser o jornalismo um farol que nunca se apaga, isto é, estará sempre atento e pronto (sem jamais descansar) para fiscalizar e denunciar, por exemplo, os atos corrupção no sistema político.

Há um contrato tácito entre jornalismo e sociedade. Esse acordo prevê que o jornalismo oferecido pela imprensa a todos considera que a informação de relevante interesse público é um direito fundamental para o exercício da cidadania e que os jornalistas não podem admitir que esses direito seja impedido por nenhum tipo de interesse (Código de Ética dos Jornalistas). Grife-se: nenhum tipo de interesse.

Agora, avalie criticamente: Imprensa e jornalistas têm cumprido esse acordo do dever da verdade? As coberturas da imprensa revelam a supremacia absoluta do interesse público sobre os interesses privados? Como tem ocorrido a seleção e o enfoque das notícias? Há manipulação e inversão? Há mentira em lugar da verdade? Omite-se para atender interesses políticos e econômicos? Há sensacionalismo e criminalização das camadas populares? Quem tem fala preponderante nas notícias: os políticos, os empresários, o Estado, a polícia?

À prática cotidiana do jornalismo impõe-se o exercício da reflexão sobre a atividade jornalística, exatamente em razão de a imprensa ser uma importantíssima instituição social. Infelizmente essa avaliação da prática do jornalismo é raríssima entre os próprios jornalistas e impensável pelos meios. Aliás, a mídia – enquanto sistema - tem verdadeiro horror e pavor da ideia de receber críticas, o que é profundamente antidemocrático.

Alguém apressadamente pode gritar: mas o jornalista é apenas um profissional que estaria a serviço da empresa, do dono dos meios. Calma com o andor. Não é bem assim, não. De fato, não se pode desconhecer que a maioria dos veículos está nas mãos de políticos, de suas famílias e de gente que trata o jornalismo como negócio. Independente da linha política dos empresários e da natureza das empresas, o jornalista é corresponsável em todo processo de informação.

O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos e ele deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação (Código de Ética dos Jornalistas). Não é o dono do veículo quem vai para rua, não coloca o revólver na cabeça do repórter diz como deve ser feito o trabalho. Nenhuma linha editorial pode contrariar o dever da verdade, a precisa apuração e divulgação dos acontecimentos.

Um fato concreto: há uma manifestação de 15 mil pessoas nas ruas. Movimento pacífico. O ato dura mais ou menos seis horas. São inúmeras as reivindicações, as pautas, as figuras, as músicas, etc, etc e etc. O ato termina tranquilo. Depois de encerrado algumas pessoas (seis ou sete) resolvem jogar pedras e tocar fogo. Alguns são presos. Claro, a imprensa cobre tudo e tem que cobrir mesmo. É acontecimento.

Quando vai se noticiar estão em destaque nas manchetes e fotos, isto é, como enfoque principal sobre a manifestação: "depredação, crime, vandalismo, quebra-quebra, saques, ônibus incendiado, terror, bombas, paus e pedras, etc, etc". O ato foi isso mesmo? Só isso? São presas 31 pessoas (muitas sem provas), todas rotuladas como "bandidos, criminosos, canalhas, vermes, pulhas", etc e etc. Nas notícias a versão oficial é a versão da polícia, e apenas são revelados os nomes e fotos dos presos, não por coincidência, pobres. Ou seja, há uma profunda desproporcionalidade na angulação do acontecimento, inversão, manipulação e a sociedade não engole mais passivamente isso.

Assim, a cobertura jornalística não informa, apenas contribui para o medo, para o pânico social, criminalizando todo e qualquer movimento reivindicatório. Qual será a reação das pessoas na próxima manifestação diante da imprensa? De apoio ou rejeição? Pior, além de desqualificar essas e outras coberturas – por má fé ou incompetência – parte da imprensa ainda carrega a arrogância de querer dar direção, impor, manipular as pautas de reivindicações populares, incentivando o comportamento de manada, de um nacionalismo tirano e fascista.

Três detalhes para finalizar: primeiro que o povo não é bobo. Até finge ser, mas não é. Tem uma paciência imensa. Demora, demora, dá muitas e muitas chances, mas tudo tem limite e acorda. Por exemplo, não foi a grande e velha mídia quem convocou as grandes manifestações. O povo não foi às ruas por causa de sua convocação, que não existiu. Os atos ocorreriam independentemente do jornal A, da tv B e da rádio C fazer convocação e cobrir.

Segundo que essa crise de representatividade envolvendo o jornalismo como uma instituição social revela um modelo falido de imprensa e uma forma ultrapassada de fazer jornalismo. Não se aceita mais com muita passividade a mentira, a manipulação, a omissão, a criminalização, a versão oficial do Estado e do mercado como única e intocável verdade. O desmascaramento não trata a aparecer. As redes sociais estão em prontidão.

Não é preciso reinventar o jornalismo nem a imprensa, mas se deve dedicar ao exercício do que essa instituição social se propõe: o dever da verdade, da pluralidade, da diversidade, do senso de justiça e respeito aos direitos humanos.

E por fim, o terceiro e talvez o mais importante detalhe: esse momento de crise é excelente para que jornalistas, empresas e entidades da sociedade civil façam uma aprofundada reflexão sobre esta instituição social. Lembre-se, por exemplo, que empresas de rádio e tv são concessões públicas. Já passou da hora da imprensa ser pensada e repensada enquanto atividade.

Esta é uma oportunidade que muitos, por própria arrogância, sequer cogitam debater. Bom, para esses, as coberturas jornalísticas continuarão sendo realizadas com jornalistas sem identificação, com medo em cima dos prédios, com a contratação de seguranças e colocando em risco seus profissionais, ampliando ainda mais o fosso entre jornalismo e a sociedade.

Reafirmo meu claro meu posicionamento contra qualquer violência, seja do Estado, do mercado e das pessoas. Nada, absolutamente nada justifica a violência, nenhuma forma violência. E sustento que a imprensa deveria aproveitar o bom momento para tomar um chá de humildade e reflexol. Faria muito bem ao jornalismo e melhor ainda para a sociedade.


José Cristian Góes
Jornalista e ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas
Mestrando em Comunicação e Sociedade - UFS
Militante do PCB e do Movimento Luta Fenaj

Eu, o coronel em mim

Escrito por Cristian Góes Ligado . Publicado em Cristian Góes

Está cada vez mais difícil manter uma aparência de que sou um homem cristian democrático. Não sou assim, e, no fundo, todos vocês sabem disso. Eu mando e desmando. Faço e desfaço. Tudo de acordo com minha vontade. Não admito ser contrariado no meu querer.  Sou inteligente, autoritário e vingativo. E daí?

No entanto, por conta de uma democracia de fachada, sou obrigado a manter também uma fachada do que não sou. Não suporto cheiro de povo, reivindicações e nem com versa de direitos. Por isso, agora, vocês estão sabendo o porquê apareço na mídia, às vezes, com cara meio enfezada: é essa tal obrigação de parecer democrático.

Minha fazenda cresceu demais. Deixou os limites da capital e ganhou o estado. Chegou muita gente e o controle fica mais difícil. Por isso, preciso manter minha autoridade. Sou eu quem tem o dinheiro, apesar de alguns pensarem que o dinheiro é público. Sou eu o patrão maior. Sou eu quem nomeia, quem demite. Sou eu quem contrata bajuladores, capangas, serviçais de todos os níveis e bobos da corte para todos os gostos.

Apesar desse poder divino sou obrigado a me submeter à eleições, um absurdo. Mas é outra fachada. Com tanto poder, com tanto dinheiro, com a mídia em minhas mãos e com meia dúzia de palavras modernas e bem arranjadas sobre democracia, não tem para ninguém. É só esperar o dia e esse povo todo contente e feliz vota em mim. Vota em que eu mando.

Ô povo ignorante! Dia desses fui contrariado porque alguns fizeram greve e invadiram uma parte da cozinha de uma das Casas Grande. Dizem que greve faz parte da democracia e eu teria que aceitar. Aceitar coisa nenhuma. Chamei um jagunço das leis, não por coincidência marido de minha irmã, e dei um pé na bunda desse povo.

Na polícia, mandei os cabras tirar de circulação pobres, pretos e gente que fala demais em direitos. Só quem tem direito sou eu. Então, é para apertar mais. É na chibata. Pode matar que eu garanto. O povo gosta. Na educação, quanto pior melhor. Para quê povo sabido? Na saúde...se morrer “é porque Deus quis”.

Às vezes sinto que alguns poucos escravos livres até pensam em me contrariar. Uma afronta. Ameaçam, fazem meninice, mas o medo é maior. Logo esquecem a raiva e as chibatadas. No fundo, eles sabem que eu tenho o poder e que faço o quero.  Tenho nas mãos a lei, a justiça, a polícia e um bando cada vez maior de puxa-sacos.

O coronel de outros tempos ainda mora em mim e está mais vivo que nunca. Esse ser coronel que sou e que sempre fui é alimentado por esse povo contente e feliz que festeja na senzala a minha necessária existência .

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O velho discurso de corte no orçamento

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Cristian Góes

A ladainha é a mesma e não se sustenta

Faz alguns dias que o Governo do Estado distribuiu entre cristiantoda a imprensa uma peça publicitária que se faz passar por “jornalismo”, mas na verdade é propaganda oficial de uma ideia, em forma de notícia paga com recursos públicos, para anunciar, com pompa e solenidade quase orgástica, que o “gasto” com pessoal em Sergipe ultrapassou o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal. Faltou apenas o foguetório tradicional das inaugurações.

Em razão de tão “trágica e avassaladora” situação, o governador Marcelo Déda “foi obrigado” a anunciar um corte de R$ 1,3 bi na verba de custeio do Orçamento do Estado, isto é, na verba que coloca a máquina pública para funcionar, o combustível, o telefone, água, luz, material de expediente, etc. Um corte de um volume absurdo e inédito: R$ 1,3 bi de custeio? É impossível isso.

Ocorre que esse anúncio “dramático” pago, repetido e insistido pelo governador e secretário da Fazenda por dias na mídia tem endereço certo: os servidores públicos. Muitas categorias têm direito a reajustes legais de salário, têm plano de carreira a serem cumpridos e outros, com justiça, buscam isso. Em outras palavras: nada este ano, no máximo, a inflação linear.

Esse discurso de corte no orçamento alegando-se crise, redução de receitas e crescimento da folha é velho, ultrapassado, vem de longe e não se sustenta na prática. Na própria página na Internet do Governo, ano a ano, esse falatório se repete e já se torna enfadonho. É um copia e cola de anos anteriores. É vício de Governo. Foi assim nos longos anos de Albano Franco e João Alves Filho.

A ladainha é a mesma: crise, corte no custeio, congelamento dos salários dos servidores efetivos, comissionados ficam intocáveis e amplos e fortes investimentos em obras garantidos. O mais incrível é que a culpa da “crise” – bem trabalhada por marqueteiros de plantão – é sempre e única dos servidores.

O Dieese, que assessora sindicatos na análise econômica, vem estudando o orçamento oficial do Estado faz anos. Quando se contrasta às informações passadas pelo Governo através da mídia e os números reais e históricos do orçamento, acaba-se desmontando quase todos os argumentos de “terra arrasada” apresentados pelo Governo.
Quando o governador carrega na expressão que o Estado “ultrapassou” o limite prudencial, seria prudencial informar os números com clareza. Esse “ultrapassou” foi de apenas e tão somente 0,3%, nada de uma pequena redução nos milhares de cargos em comissão não resolveria. O índice é de 46,55% e o Estado chegou a 46,89%.

Outro detalhe. No último ano do Governo João Alves Filho (2006) esse percentual ficou em 42,88% e nos últimos cinco anos só aumentou 4%, mesmo depois de todos reajustes, recuperação de perdas e concursos públicos. Vale lembrar que o limite máximo de gasto no Executivo é de 49%. Há várias denúncias que o crescimento desse índice é fruto da ilegal ação do Governo do Estado de absorver com recursos do Executivo os pagamentos de altíssimas aposentadorias e pensões vindas do Legislativo, Tribunal de Contas e Judiciário. Se isso se confirmar, é um escândalo de grande impacto. 

Dois outros detalhes chamam atenção na propaganda festiva do corte: um é a veemência absoluta do governo em garantir de mãos juntas que nenhum centavo de investimento em obras será cortado, isto é, dinheiro a rodo tem para empreiteiros. O outro é o silêncio sobre cortes nos valores e quantidade de cargos em comissão. A CUT/SE, por exemplo, pediu que o Ministério Público do Estado procurasse saber onde estão e o que fazem cerca de 3,5 mil altos cargos comissionados na Casa Civil. A LRF impõe que o primeiro corte que deve ser feito nessa turma para que o Estado se ajuste.

Para encerrar, algumas datas. 17/07/2007: “o governador avalia como positivas as medidas de corte no custeio, combate ao desperdício e à corrupção.” 08/01/2008: “Sergipe economizou R$ 184 milhões em despesas de custeio até novembro de 2007”. 02/01/2009: “Déda alertou para o momento delicado vivido mundialmente por conta da crise econômica... mas já foram liberados quase R$ 60 milhões para Ponte Indiaroba-Estância. Teremos também a construção do Terminal Pesqueiro de Aracaju. Dois outros projetos serão examinados como prioritários: a reforma do Batistão e a construção da Orla da Coroa do Meio”.

E tem mais: 11/02/2009: “Déda determina redução de gastos gerada por queda na arrecadação do ICMS”. 25/04/2009: “Déda determina mais contingenciamento nas despesas de custeio do Estado”. 24/08/2009: A Revista Exame destaca que Sergipe tem uma gestão eficiente porque prioriza o corte nas despesas de custeio e o aumento dos investimentos em obras de infraestrutura. 11/09/2009: “Governador determina a gestores mais contingenciamento no custeio”. 15/03/2010: “Apuração das receitas do 1º bimestre aponta para manutenção de contingenciamento”. 18/03/2010: “Política de investimentos do Governo do Estado em obras não será afetada em 2010”. 07/02/2011: “O governador determinou um corte de R$ 1,3 bilhão nas despesas de custeio”.

A conta apareceu I
Dois nomes estariam na disputa para a vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe: o do ex-deputado e atual secretário de Educação, Belivaldo Chagas (PSB) e o da deputada estadual Angélica Guimarães (PSC). Na teoria, a escolha do novo conselheiro é da Assembleia Legislativa. Na prática, quem escolhe é o governador. E Marcelo Déda escolheu Belivaldo Chagas.

A conta apareceu II
A escolha de Déda atendeu, de cara, dois objetivos: compromisso em razão de Belivaldo ter sido rifado no cargo de vice-governador na gestão passada, abrindo mão de ser candidato a deputado estadual, e o outro é que amarra o PSB ainda mais no bloco de situação. E que o fez o PSC? Deixou para lá a vaga no tribunal?

A conta apareceu III
O PSC sabe que o PSB do senador Antônio Carlos Valadares pode ser um possível aliado em 2014 e insistir na candidatura de Angélica poderia distanciar essa possibilidade. Mas a presidente da Assembleia não ficaria de mãos vazias. A conta da “desistência” dela e do apoio a Belivaldo passou pelo acerto de Angélica Guimarães continuar presidente do Legislativo estadual até dezembro de 2014.

Edvaldo sincero
O prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PCdoB) foi sincero quando disse que acha muito difícil que o bloco de situação liderado pelo governador Marcelo Déda tenha um único candidato a prefeito de Aracaju. Sem qualquer convicção no discurso, diz ele que vai até o fim na defesa da candidatura única. No entanto, imediatamente, emenda festejando: se a candidatura única não vingar, vai estar liberado, à vontade para apoiar quem quiser.

João não sai
Edvaldo defende a seguinte tese: se o bloco da situação no município e no Estado sair com apenas um candidato a prefeito, o ex-governador João Alves Filho, não será candidato a prefeito de jeito nenhum. Duas situações difíceis: o bloco de situação sair unido (mesmo com candidato único) e o ex-governador não ser candidato.

Sem nomes expressivos
Depois que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD, ex-DEM) e a cúpula do PT estão fechando a aliança na capital paulista para que o PSD indique o vice na chapa liberada pelo petista Fernando Haddad, o PSD (formando por ex-DEM e ex-PSDB que tiveram vergonha se filiar ao PT) quer também indicar os vices candidatos a prefeito em várias capitais, entre elas Aracaju. Mas aqui, qual seria o nome expressivo para um complicada composição? Jorge Araújo, da direção do PSD, diz que existem vários.

PT e DEM
Em vários cantos do País já se costuram alianças para as eleições de 2012 entre PT e DEM. Em Barueri (SP), por exemplo, parte considerável do PT quer apoiar a candidatura do deputado Gil Arantes (DEM) a prefeito.

Outra Petrobras?
O entusiasmo é tão grande com a notícia de que o conselho de Administração da Vale havia aprovado o contrato com a Petrobras para arrendamento das jazidas de Carnalita (Potássio) de Sergipe, que o governador Marcelo Déda chega a comparar o fato com a histórica chegada da Petrobras nos anos 60. A promessa com o projeto da Carnalita é de investimentos iniciais de US$ 4 bilhões e mais de 5 mil empregos. É esperar.

Quer avaliação
O Sintese afirma que os professores não têm medo de avaliação, querem a avaliação. “O que o sindicato sempre questionou é o método escolhido pelo Governo do Estado. Queremos avaliar todo sistema educacional. O pacote do Mares Guia apenas criminaliza professores, coordenadores e diretores de escola”, informa a presidenta do Sintese, Ângela Maria de Melo. Ontem foi realizada uma manifestação.

Enquanto isso...
Ao mesmo tempo em que o Governo do Estado contrata uma figura cheia de suspeitas para montar uma avaliação externa e condenatória de professores e diretores de escolas, Sergipe, o menor estado do Brasil, ainda carrega o terrível número de quase 38 mil crianças e jovens, fora da escola. Dados do IBGE divulgado na última semana.

Universidade de olho
O edifício-sede do INSS no Centro de Aracaju foi inaugurado em 31 de março de 1971. Foi interditado pela Defesa Civil para que se promovam ajustes, principalmente na parte elétrica. Ele precisa atender as novas exigências de segurança. Na sexta-feira passada, dirigentes de uma universidade já estiveram conhecendo as estruturas do prédio. “Sem compromisso”.

Será que vai?
Passou tantos anos abandonado que é difícil acreditar que o belo prédio em ruínas da antiga Alfândega, na Praça General Valadão, no centro de Aracaju, será mesmo revitalizado. O prefeito Edvaldo Nogueira assinou ordem de serviço para as obras. Serão R$ 2,8 milhões. A promessa é que o novo prédio, que será uma casa de cultura, estará pronto em dezembro deste ano. Nele vão ter teatro, cinema, espaço para exposições artísticas e museu.

Prêmio Ademi-SE de Jornalismo 2012
Os jornalistas que pretendem concorrer ao Prêmio Ademi-SE de Jornalismo 2012 devem se apressar, pois o prazo para inscrições termina no dia 29 deste mês. Os trabalhos jornalísticos devem ser entregues na sede da associação ou enviados pelos Correios. As melhores reportagens sobre o mercado imobiliário local serão premiadas com valores que chegam a R$ 5 mil. O regulamento da premiação pode ser encontrado no site da Ademi-SE.

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As certezas do vendedor de açaí

Escrito por Cristian Góes Ligado . Publicado em Cristian Góes


Ideias sobre gratidão e esperança

Por uma dessas coincidências da vida – talvez elas sequer existam - calhou desta coluna cair na primeira semana do ano. E o que escrever em um momento tão simbólico assim? O que dizer aos leitores nos primeiros dias de mais uma semana como tantas outras, mas que na verdade representa o começo de um novo ano? Política, economia, jornalismo, bastidores? Perdão, mas hoje o texto é em primeira pessoa.

Para muitos, os últimos dias de dezembro e os primeiros de janeiro são carregados de nobres sentimentos, com predominância da gratidão e da esperança. Agradecer pelo que passou e esperar dias melhores. E esses dois substantivos abstratos que se esvaziam com o tempo – gratidão e esperança - me fizeram lembrar um vendedor de açaí que conheci faz poucos dias, durante uma viagem de trabalho pelo mais profundo interior do Pará.

Galdino, seu nome, 73 anos, transformou gratidão e esperança em substantivos concretos. Ele mora em Vira Sebo, uma comunidade ribeirinha do município de Prainha, no Oeste do Pará e que fica a quase seis dias de barco de Belém. Aquela região do Tapajós não tem relação com a capital do estado. As referências urbanas ali são Santarém/Pa, Manaus e Macapá. Aliás, aquela região tem pouca referência do Brasil conhecido pela maioria de nós.

Durante uma semana, a presença de seu Galdino foi constante. Eu estava hospedado na agência flutuante da Previdência Social que atende as pessoas em locais de muito difícil acesso. O Prevbarco, no imenso rio Amazonas, tinha atracado ali, no pequeno porto da Prainha. Antes que o sol nascesse, seu Galdino já estava lá. Em pé. Olhar fixo em um horizonte sem fim de um rio que parece oceano. Ao seu lado um carrinho-de-mão com caixa de isopor. Nela, sacos plásticos com uma espécie de purê de açaí.

Figura esguia marcada pelo tempo. Chapéu de palha. Roupas surradas. Vez ou outra ele abria a caixa, parecia conferir o conteúdo e logo voltava a perder o olhar no infinito do rio. Por volta das 11 horas, sol insuportável, retirava do isopor uma cuia, despejava o açaí e misturava com um punhado da grossa farinha amarela de mandioca d´água. Antes que as últimas garças cortassem o céu cor de ouro, por volta das 17 horas, seu Galdino pegava a rabeta (pequena canoa com motor e hélice na trazeira) e sumia nas águas do Amazonas em busca de Vira Sebo. Não se via vender nada.

Todos os dias eram rigorosamente iguais. No meu último dia ali, falei com ele. Com uma alegria e simplicidade intensas e incomuns, seu Galdino me contou que cumpria esse ritual fazia quase dez anos. Falava com uma emoção e um prazer da vida que jamais tinha visto. A conversa não sai da lembrança. Não tinha queixas, tristezas, frustrações a expressar. Incomodado e educado para o capital, eu quis saber se não tinha prejuízo passar vários dias em vão, sem vender um saquinho de açaí aos poucos barcos que ali chegavam. Com um sorriso, respondeu-me, mais ou menos assim:

“Não preciso de dinheiro. Tenho tudo o que preciso. Mandioca, peixe e açaí. Agradeço a Deus por esses presentes, frutos da terra e do trabalho do povo. O açaí? se alguém quiser, tudo bem. Se não, não tem problema. Venho amanhã de novo. Pode apostar!”. Ri e depois de alguns segundos em silêncio, completa: “Na verdade não vendo açaí. Meu filho foi a Macapá faz dez anos e prometeu voltar. Não sei dia nem hora, mas ele volta e vai chegar por aqui. Espero desde o dia seguinte de sua viagem. Disse que quando ele voltasse, iria me encontrar com o açaí na mão. Demora, mas ele chega”. A espera de seu Galdino não era esperança triste e vazia, mas uma certeza viva, renovada a cada dia.

Desse rápido contato, várias lições. Uma que é preciso agradecer sempre, mas não a gratidão passiva.  O peixe, a farinha, o açaí – frutos da terra – não serviriam para o sustento sem a intervenção do homem. Outra é que a esperança se busca. Seu Galdino não ficou no povoado a espera. Foi para além de onde podia, enfrentando o medonho rio numa pequena rabeta. Apesar de uma espera infinita e monótona para nós, lá estava ele, todos os dias no porto. E a cada dia, um homem novo, com esperanças novas, ou melhor, certezas. A chegada de seu filho não implicaria dias melhores do ponto de vista financeiro – ele não precisa - apenas a possibilidade dele agradecer mais ainda pela vida.
Os sentidos do tempo, da alegria, do humano e da vida ensinados por seu Galdino são muito diferentes dos quais nós temos numa sociedade urbana do consumo desumano, fugaz e imediato.

Naquele mesmo dia dessa conversa, uma quinta-feira, 8 de dezembro, final da tarde, um barco vindo de Macapá com direção a Santarém chegou a Prainha. O filho dele não estava. Eu entrei na embarcação para seguir meu destino. No porto, seu Galdino, alegre acena para mim e, já de longe, grita: “amanhã vou estar aqui de novo”. De Macapá a Santarém, passando pela Prainha, só passam dois barcos de linha por semana.