África - Esperança e tormentos

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Joel Almeida

“Às vezes é tormenta,
Fosse uma navegação.
Pode ser que o barco vire
Também pode ser que não

Lulu Santos

O CONGRESSO II

 

Os debates aqui ocorrem nos grupos pré-escolhidos por Foto: Joel Almeidadelegados e observadores, e em seguida, vão para o grande plenário onde são aprovadas resoluções sobre todos os temas. Muito parecido com o que ocorre no congresso da Cnte, obviamente, em ambiente de debate muito menos acalorado que o nosso.

Eu escolhi ficar no grupo que trata de financiamento da educação e o da privatização da educação, e para mim, foi importante constatar que estas duas políticas têm ocorrido com muita força no mundo inteiro. Aqui se condenou a parceria público-privada na educação, inclusive foi citada a rede Wal-Mart, que aí no Brasil é proprietária das redes de supermercados Bompreço e Todo Dia, e esta rede faz doações em forma de caridade para pagar menos impostos. Condenou-se os organismos internacionais que influenciam na educação pública, a exemplo do FMI, inclusive citando, vejam só, o Brasil e a Argentina como exemplos de países que não estão mais submissos ao FMI. Foi aprovado um projeto de resolução contra as políticas neoliberais na educação e os planos de austeridade na Europa, em virtude da crise econômica que afeta fortemente a Grécia, Portugal e Irlanda. Em discurso unânime foi aprovada a necessidade da ampliação do PIB (Produto Interno Brasil) para a maioria dos países do mundo. Aqui também foi aprovada uma resolução contra a exploração do trabalho infantil.

Marcante também foi uma resolução aprovada sobre o respeito à diversidade e contra a discriminação de raça, cor,língua,gênero,orientação sexual e religiosa. A África do Sul foi o segundo país do mundo a aprovar a união homoafetiva, bem antes do Brasil. Surpreendeu-me também a aprovação da adoção de políticas afirmativas que promovam o acesso à educação pública de qualidade por parte dos excluídos e marginalizados da sociedade, muito bom!

O processo eleitoral ocorreu sem surpresas, a Susan Hopgood, da Austrália, foi reeleita presidente da IE, a Juçara Dutra, foi reeleita como Vice- Presidente Mundial para a América Latina, e a maioria dos candidatos que os delegados da CNTE votaram, e que fazem parte de outros continentes, também foram eleitos.

Sinceramente, conhecendo o comportamento de parte das representações sindicais mundiais, cada vez mais recuadas, sendo engolidas pelo neoliberalismo, com um discurso muito próximo dos patrões, foi uma boa surpresa a qualidade política dos documentos, e a necessidade de resistência que a todo momento era ratificada nos documentos. Há esperanças!

SOB O CÉU DA ÁFRICA

 

CLIMA

 

Estamos no inverno, e esse período geralmente é muito frio, e chove. Felizmente até o momento não choveu. Durante esse período a temperatura variou de 8 a 19 graus. Quando chegamos a temperatura estava próxima a 19 graus , tempo bom, e podemos perceber isso ao olhar a “Table Mountain”, quando a visão é nítida a temperatura é agradável, quando o nevoeiro cobre o pico da montanha o frio é grande, mas seria menos inquietante e perigoso, se não fosse o forte vento, há momentos que parece um ciclone de tão forte e barulhento, as pessoas correm, e a gente percebe que elas já aprenderam o momento de parar, andar ou correr de acordo com a direção ou força do vento. Quando venta muito forte, o acesso à Table Mountain é proibido, e nos restaurantes não é difícil encontrar lareiras para aquecimento. O mar é lindo, e muita coisa no centro foi construída sobre ele, ele corta o centro da cidade. As águas são frias. Um guia turístico do hotel de nome Gaston – um argentino que já morou no Brasil e vive aqui há vinte anos – disse que no inverno a temperatura das águas fica em 12 graus e no verão 16 graus. No inverno em Cape Town, o dia só fica claro às 8h da manhã e às 18h já é noite. O comércio, exceto o Shopping Center, fecha ás 17h.

 

LÍNGUA E CULTURA

 

A língua oficial da África do Sul é o inglês, embora haja alguns dialetos aqui. É comum nos centros comerciais encontrarmos trabalhadores, inclusive ambulantes, que falam outras línguas, o francês,e mais raro espanhol. A Língua tem sido aqui o nosso maior desafio na hora da comunicação, e quando o diálogo está muito difícil, a gente usa a linguagem universal do gesto. Nos restaurantes, é que a coisa aperta, na hora de pedir o menu e escolher a comida. Há um restaurante próximo ao hotel, o Enigma, que faz uma coisa maravilhosa para turistas, lá eles põem as fotos da comida, aí facilita tudo, mas não é regra, descobri aqui que é importante pôr fotos dos pratos. Nos primeiros dias sofremos mais com isso, depois descobrimos que geralmente em cada lugar desses alguém fala francês, e aí me viro por aqui, meu francês em desuso me salvou , e todos já se sentiam mais protegidos. Como a África foi colonizada por diversos povos, e como a distância de um país para outro não é tão grande, até por necessidade comercial, muitos habitantes falam mais de um língua, diferentemente do Brasil que, pela dimensão territorial, e pelo pouco incentivo às escolas públicas na aprendizagem de outra língua, sequer falamos o espanhol, que vem a ser a língua de todos os países vizinhos ao nosso.

Não tivemos oportunidade de ver muitas danças e músicas africanas em apresentação, afora o que foi visto no congresso, ou em casa de show. Cape Town é uma cidade que a vida noturna é pouco movimentada. Salvam-se aqui o “Mama África”, um lindo e movimentado restaurante e casa de show e o Havana Club, com ritmos cubanos. Nos canais de televisão que o hotel disponibiliza, vimos muitos vídeos de cantores africanos de hip-hop, sempre com mulheres seminuas ou em poses sensuais, ou então videos das cantoras americanas Beyoncé ou Mariah Carey . A influência da música americana é avassaladora, provavelmente pela identidade de língua, da luta contra o apartheid, e pelas relações comerciais.

No entanto, as avenidas, praças e o centro comercial trazem toda a temática cultural africana, impressionante como essa cidade é decorada com cores fortes que se revezam, quase um “ ton sur ton”, bege –laranja –vermelho-marron e preto. No mercado popular várias peças de artesãos africanos tomam as praças,pequenos leões e elefantes e girafas de madeira, ficam em evidência em meio a um turbilhão de cores e outras peças. Mas aqui também se vê roupas de última moda, como na maioria dos grandes centros mundiais, sempre abusando das cores que formam um conjunto harmonioso e bonito. As ruas seguem essa mesma cultura. Após a camada de asfalto, em pontos estratégicos, temos uma faixa de pedestre feita com tijolinhos vermelhos, e em algumas avenidas caules de árvores cobertos com tecidos amarelos.

 

AFRICA PÓS APARTHEID – ESPERANÇAS E TORMENTOS

Restou-me aqui dizer o que vejo, sempre com um olhar apaixonado, mas sem perder o meu sentimento de mundo. A África do Sul, após Mandela, é outra, bem diferente, mas que ainda não resolveu as grandes demandas sociais do seu povo. A África é um continete em que 80% da população vive em condições muito precárias, a morte desassistida ainda é recorrente, e a África do Sul não é muito diferente. Cap Town tem condições mais favoráveis, a renda per capita aqui é maior, o centro da cidade e seus arredores são coisas de primeiro mundo, muito mais avançando em termos de organização, modernidade e limpeza do que vemos no Rio de Janeiro e São Paulo, mas não visitei os bairros, onde residem os trabalhadores, para verificar a real condição de vida deles. Vimos aqui diariamente longas filas de trabalhadores em agências públicas de emprego, e até catadores de lixo. A África é um continente contaminado pelo vírus HIV, é assustador o número de negros contaminados. Inclusive no congresso, há uma campanha forte de solidariedade à professores e alunos com o vírus.

Entretanto é inexorável registrar que Mandela na África do Sul virou um sentimento, é um ícone muito mais venerado que Lula no Brasil. Todo dia 18 de julho, aniversário dele, e tive a oportunidade de acompanhar, ocorre o “The Mandela of Day”, O dia de Mandela, onde cada cidade do Sul da África promove alguma atividade de inclusão social.

O período pós Mandela trouxe uma inclusão dos negros importantíssima, embora não revolucionária. A luta contra o apartheid, e toda luta traz isso, forçou os governantes a promoverem uma real inserção dos negros há funções de estado, que antes eram completamente excluídos. Os negros estão no comando de postos estratégicos na África do Sul.

Há canais de televisão em que todos os apresentadores são negros. No entanto são os brancos que ainda dominam a economia e conseguem manter um padrão de vida muito superior ao da população negra. Verdadeiramente, em países como a África do Sul e nos Estados Unidos, em que a segregação foi escancarada, e a organização e a luta dos negros fizeram sucumbi-la oficialmente, o processo de inclusão foi mais rápido. Diferentemente do Brasil, que a suposta miscigenação escamoteou o problema, e ser negro virou sinônimo de coisa ruim , feia ou suja, e daí o abuso dos eufemismos para caracterizar os negros ( escurinhos, moreninhos, etc..), ou então resumir suas habilidades à força física, ginga,dança ou estereótipos sexuais. Assim, sem identidade, não há luta. É verdade que a maioria do povo brasileiro não nutre um ódio racial, mas o convívio amistoso,por si só, não faz diminuir as diferenças de condições de vida entre a população branca e negra brasileira.

Hoje na África do Sul há um sentimento forte de orgulho negro, e retorno para o Brasil, imposto para não morrer de banzo, pela saudade da minha família, dos meus amigos e companheiros, com uma experiência singular de quem realizou um sonho.... e que quer voltar para cá, com outros que sonhem também... com outras que geram da sua alma e dos seus seios o alimento que nutrem a alma e a vida de quem quer crescer, e dizer sim, a tudo que fizer evoluir a humanidade!

“Luz acesa
Me espera no portão
Pra você ver
Que eu tô voltando pra casa
Me vê!
Que eu tô voltando pra casa
Outra vez...”

Lulu Santos

ATÉ QUINTA

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África: cheiro de amor

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Joel Almeida

“Inspiração do meu sonho não quero acordar

Quero ficar só contigo não vou poder voar

Como no filme, no final tudo vai dar certo...”

Bernardo Faria

Enigmática, exótica,inebriante ...assim como decifraria a África PQAAADIpjVEEuh6wLRV6Jvk4v4rSlxc6EDzmlQfk-SC6WdiaJ7JP4OzlCG3VDO7H0GHhc2ygychgXK9qncWVXUFbpJoAm1T1UJ5wYSkOf4zo0EKP3xFxY5ghgG_o2que minha visão não cansa de contemplar, e meu olfato de bicho do mato escravizado, retido, saudoso, não me deixa confundir, é cheiro de amor. Como começar essa história, são tantas coisas, tanta beleza, tanta contradição, tantos tentos marcados, tantos olhares para a “Table Mountain”, e para o “Cape Point” que tenho a certeza de que este lugar “ Cape Town” foi apartado do Rio de Janeiro. Cortaram os continentes, a outra parte prostou-se aqui, tão linda e insinuante quanto o nosso Rio de Janeiro. Mas, bem, vou compartilhar esse momento por etapas.

O  CONGRESSO

Este é o 6º Congresso Mundial da IE ( Internacional da Educação), com o tema Uma Educação de Qualidade para Construir o Futuro”, ele se divide em duas etapas, a primeira com temas diversos em relação às questões das mulheres, LGBT, dos indígenas e negros, além da educação superior. Vimos nessa etapa a participação de estudantes secundaristas africanos. Pude conversar com Luís e Assibia, presidentes de sindicatos, ele do Guiné-Bissau  e ela de Gana, o Luís tem o jeitão do Rui Oliveira, da Bahia, penso que parte dos baianos vieram lá do Guiné.

Na segunda etapa os aspectos que envolvem a política geral da educação básica, além da discussão organizativa da entidade e eleição da direção da entidade. Há representação do mundo inteiro, e aqui se elege 1 presidente, e 1 vice-presidente para cada região do mundo, a nossa abarca toda a América Latina, e Juçara Dutra, ex-presidente da Cnte, é atual vice e está concorrendo a segunda reeleição. Infelizmente, os problemas nossos são mundiais, baixos salários, e muitos países ainda com condições de trabalho aviltantes. Estiveram presentes no evento o Vice-Presidente da África do Sul e vários ministros.

O modelo organizativo da IE é elitista e anti-democrático. Aqui, o número de delegados ao Congresso deriva da quantidade de professores que estão na base das entidades nacionais, o valor da inscrição é altíssimo, e não há uma checagem se a quantidade de delegados informada está correta, ou seja, quem pagar mais inscrição terá maior delegação. A CNTE inscreveu 5 delegados, há aqui também 5 dirigentes de alguns sindicatos filiados à CNTE, que vieram custeados pela entidade de origem.

Apesar das contradições, não se pode desprezar um momento desse, é ainda um espaço de tentativa de uniformizar uma pauta de política educacional com consequente para o mundo.

A  CIDADE

Para chegar em Cape Town ( Cidade do Cabo) na  África do Sul foi muito cansativo. Saímos de São Paulo às 18h em um vôo de 8h até Johannesburg. Quando chegamos em Johannes eram 7h da manhã, ou seja, aqui a diferença de fuso-horário é de 5h para mais. Portanto 7 da manha na África são 2h da madrugada no Brasil. Em seguida tivemos que pegar um outro vôo para Cape Town, que durou duas horas. Cape Town é uma cidade de primeiro mundo na África do Sul, é a antítese da pobreza que conhecemos da África. Á África do Sul tem três capitais, Cape Town – capital legislativa, Johannesburg – Capital econômica, e Pretoria – capital judiciária. Não cheguei a conhecer as outras, mas pelo que ouvi falar aqui, e pelo que vi, a Cidade do Cabo é a mais organizada, limpa, segura e bela de toda a África do Sul. Tudo no centro da cidade e nos arredores parece que foi construído há um ano, por ocasião da Copa do Mundo, prédios imensos, conservados, avenidas largas, limpas, bem sinalizadas; calçadas e calçadões com tijolos vermelhos, praças amplas, bem cuidadas, encontramos esquilos e pombos passeando nelas,lojas modernas. Na chegada um susto,  a mão do trânsito é inglesa, o volante dos automóveis é do lado direito, bem como a mão de direção, a todo momento você pensa que o carro vai bater.  Por falar em carros, aqui a Hyundai e a BMW dominam o mercado com seus carrões, com muitos negros ao volante. O aeroporto é grande e moderno, o Centro de Convenções é um espetáculo.

A Cidade do Cabo é ladeada pela Table Mountain ( Montanha de Mesa) é uma montanha imensa de pedras retas no topo, com formato de mesa, é um grande ponto turístico aqui, tem  um bonde e um trenzinho que  leva os turistas ao topo, igualzinho ao Corcovado no Rio. Não pudemos chegar ao topo, os transportes estavam em manutenção. Aqui o ano passado, foi uma das sedes da copa do mundo, a nossa algoz, a Holanda, jogou nesta cidade, e como é lindo o estádio – O Green Point – os africanos dizem que virou um elefante branco, o futebol não é tão desenvolvido,  e o estádio ficou sub-utilizado. Mas, a grande  beleza de encher os olhos é o caminho ao Cabo da Boa Esperança, o porto das focas, os pingüins, e o cabo, como é lindo, exuberante. Gente, dobrei o cabo da boa esperança, vida longa para todos nós!

Mas vi também duas favelas de latas, uma grande, vizinha ao aeroporto, e outra pequena, próxima ao centro da cidade. Aqui, provavelmente por preconceito, fala-se que são os lugares mais violentos, e onde se cometem pequenos furtos, pois homicídios é raro.

O POVO

A Cidade do Cabo é uma cidade negra, mais de 90% dos que vi aqui são negros. Nos aeroportos, hotéis, restaurantes, lojas, mercados, quase todos os trabalhadores são negros. Andam bem elegantes e são muito educados, dizem que é o lugar mais tranqüilo da África, comenta--se  que aqui  é ao contrário de Johannesburg, que é muito violenta, sobretudo por conta de Soweto,  que fica em Johannes. Queria conhecer Soweto, mas acho que não vai dar. As mulheres do Caboi são “rebucolosas”, e as meninas mais jovens imitam o corte de cabelo da cantora americana Rihanna. Fiquei encantado com três crianças africanas que saiam da escola, tão puras e doces,nos recepcionavam calorosamente. Mas foi no mercado que vi um exemplo de ser humano, John Ndjila, um jovem rapaz do Congo, disse-me que tinha 27 anos, mas parecia um adolescente, ele ajudava os artesãos a se comunicarem com os turistas.

John era um jovem missionário metodista muito simples, me perguntou se eu era cristão, o rapaz falava quatro línguas, a de seu lugar, o suali, o inglês, o francês, o português, e compreendia bem o espanhol. Disse-me que aprendeu português em Moçambique. Depois de conversarmos muito, me perguntou se estava em redes sociais, disse a ele que estava no facebook, de imediato ele pegou um simples celular, acessou o face, me localizou, e pediu pra adicioná-lo. Um espetáculo humano!

Todos dizem que depois da copa do mundo o desemprego aumentou, pois houve muita imigração para trabalhar na construção civil, sobretudo de Moçambique, e não é difícíl encontrar pedintes nas ruas.

A ALIMENTAÇÃO

A comida é maravilhosa, um tempero fantástico. Os pratos são caprichados, bom peixe, muita carne de boi e frango, no entanto, quase não tem arroz aqui, só carnes e batata frita ou salada, pense para quem está acostumado com um prato de arroz e feijão. Por falar em feijão, só encontrei dois dias no café da manhã do Hotel, maravilha, não é? Aqui o tempero é tudo, além de vir caprichado no prato, isso quando já não vem com pimenta, você tem muita opção sobre a mesa se quiser reforçar o tempero. O legal  foi que, pela primeira vez, comi uma deliciosa moqueca de frango, isso mesmo, ao invés de peixe, frango. Os preços dos restaurantes são um pouco mais baratos que no Brasil, pratos individuais custam entre 60 e 80 rands – moeda local – desvalorizada 4 vezes em relação ao real – ou seja, o mesmo prato no Brasil equivaleria entre 15 e 20 reais.

Depois de vir aqui, não tem jeito, quero ficar, quero ir em Soweto,  conhecer Angola, Moçambique.... Vou ao Congo, na terra de John... Vou deixar o tempo passar,  que  a vida diga sim. Esta semana pelo msn perguntei a Conceição se ela viria com minhas filhas, me respondeu, ,disse que sim, depois disse que ia pensar.... só me resta apelar .....

O vento faz rendez-vous

No seu cabelo alinhado

Acostumado com o meu embolado

Acho que o passo é do seu sapato

Dona Naná tá danada

O santo dela desceu

A jangada tá lavada

Entre nela mais eu

Vumbora amar

Embora mais eu

( Carlinhos Brow )

ATÉ BREVE!


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Vou-me embora para a África

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Joel Almeida

Sábado, 16/07/2011, logo cedo irei à São Paulo, e à noite, seguirei viagem joelalmeidaà Cidade do Cabo, África  do Sul. Junto à quatro dirigentes da CNTE ( Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação) participaremos do Congresso da Internacional da Educação,  Organização Mundial de Educadores que debate e delibera lutas por políticas de valorização da educação e dos educadores de todo o planeta.

Participar de um evento dessa magnitude, por si só, já é um grande privilégio para um professor, mas estar na África para mim é uma realização de vida, que um dia vi refletida na música dos tribalistas, “você é assim :um sonho pra mim”, “meu riso é tão feliz contigo” . Sonho que se inicia na minha “velha infância”,  e assim a decifro nos tenros anos de adolescência, quando pude dar conta dos amores e dissabores da minha negritude.

A África nunca saiu de mim. O meu espelho não me faz esquecê-la, a imagem da minha mãe não me deixa negar, os rostos das minhas filhas me fazem lembrar que elas, ela, e eu somos um só.

No entanto foi a paixão pela literatura que me fez descobrir o gigante continente, e me aproximar daquele que soube bem dizer o que era esse sentimento, Castro Alves :

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!”

( Canção do Africano )


Castro Alves foi quem também melhor  exprimiu o primeiro apartheid:

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar

E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

(Navio Negreiro)

Em toda sorte de tempestades, os negros e negras resistiram ao trabalho animal e às taras dos que se embebiam do sangue e da alma do outro, e que compuseram uma herança de mais de quinhentos anos.

E de tantos e tantos vagares sinto-me legitimamente representado pela música – arte suprema- “a música dá a vida quando a vida falta”, de todos os ritmos, de todos os tons, as que nutrem corações apaixonados; as que afloram orações emocionadas, os cérebros criativos, as  almas supremas. Mas também da dança. A dança  que inebria, faz chover, mostra as infinitas possibilidades do corpo físico.

Mas, sem dúvida, a nossa principal herança é o humano, a informalidade, o riso fácil, a resistência às adversidades, sempre múltiplas, quase sempre injustas.

É na terra de Mandela -  “ Diga não ao apartheid ,e libertem Mandela , nosso grande irmão” (Banda Reflexus) - Símbolo de resistência para o mundo, por sua luta contra o mais odiento  regime de segregação de um povo,  que acontecerá o primeiro congresso internacional de educação desta década, os desafios são gigantescos, o mundo capitalista em crise, o Brasil tentando emergir nesse cenário, e a valorização dos educadores ainda como principal ponto de pauta.

Vou-me, e deixo aqui minha gratidão aos educadores à esquerda desse país, aos que fazem o Sintese, minha grande inspiração, aos companheiros sergipanos e brasileiros que na qualidade de delegados ao congresso da CNTE me reconduziram à direção nacional desta entidade, e que , cada vez mais me aviva a idéia de que sonhos e realizações podem ser  sinônimos, quando a luta, a atitude, o despreedimento, a justiça social, e a sensibilidade para o bem comum forem os princípios que alicercem uma sociedade sem apartheid.

Até breve!

Um tributo ao amicompanheiro José dos Santos

Escrito por Joel Almeida Ligado . Publicado em Joel Almeida

É sempre muito doído quando parte alguém por quem nutrimos muita admiração. O verbo partir deveria ser o início do verbo retornar. Sem dúvida a vida seria mais atraente se os homens “dessem um tempo somente”. Mas nosso companheiro Zé dos Santos partiu para um outro plano, e já não poderemos encontrar com o seu corpo físico. Do barro que gerou Zé nasceu árvores frondosas, luzes, seres que entenderam que é sempre bom dar algo a mais para o próximo ou para os companheiros, seus irmãos refletem um pouco disso, e nosso Zé ousou mais, mesmo sendo um dos mais contidos no movimento do corpo.

Zé era assim, dos santos, dos deuses, de Lucinalva, da chuva, da poesia, da luta, da liberdade...Discreto, franzino... do sol, do sal, um “nobre” José dos Santos. Um corpo marcado e freado pelas chagas da infância que contrastava com uma mente poderosa, livre, que passeava pelo vago infinito com a elegância e destreza de um condor. “ *Quando voa o condor, com o céu por detrás, traz na alma um sonho... voa condor, que a gente voa atrás...”

Sua opção óbvia foi a de juntar-se a todos que lutam por justiça, seu caminho o da escola, o da universidade, o do Sintese, o de estar livre para ajudar na libertação de outros. A sua arma, a poesia, a sua alma, a inquietude, o seu olhar, o de um visionário do exato momento de romper a tensão ou a apatia.

Zé escreveu sobre si “Não sou de ninguém, não tenho dono nem dona...;” sobre Aracaju “ Aracaju metropolitana nordestinada, cicloviada formosa, como é bom viver aqui, “Mirando as ondas do mar mirando...;” sobre Ana Lúcia “ Ela é mariojorgeAna de sangue e “poesia visceral”, revolucionária, paulofreireAna irretocável por convicção e amor à humanidade, sinteseAna de raiz fundante...;” sobre o Sintese “ Quem é esse sindicato, que não retrocede, não se vende, na se rende, não se confunde, não pode ser derrotado?” sobre a luta dos educadores “ô abram alas..” “desebarguem por favor porque a Progressão é nossa!”

José dos Santos escreveu um livro “Utopia Peregrina” e foi homenageado por muitos educadores. Que bom que houve tempo! Em um dia de muita alegria, tive a felicidade de ser homenageado com uma poesia do amigo Zé. Ela se chama “Um Sonho”, e em certo momento, ele fala do seu sonho:

“ Que outros se desesperem com você, liberdade...

................................................................................

E eu nunca deixarei de cantar a esperança. Tenho um sonho,

Companheiros e companheiras. Deveras eu também tenho

Um sonho. Um inapagável sonho,

Professoras e professores, Que um belo dia estejamos todos

Reunidos Para celebrar a nossa vitória. A fragorosa vitória da

Classe trabalhadora

A vitória do POVO!

Quer mesmo saber... eu nunca me desespero. ’’

Quando foi sepultado Zé estava ao lado de sua família, de amigos e companheiros. Ele foi um vitorioso, não se desesperou... nunca. E assim parafraseando o seu poeta maior : ‘Vai Zé ser guache na vida.’

É preciso reestruturar a Seed

Escrito por Joel Almeida Ligado . Publicado em Joel Almeida

 

Sejam bem  vindos a este espaço, aqui tratarei de questõesjoelalmeida relativas a diversos temas que se interligam no nosso cotidiano. Vamos ao debate!

 

 “ De muito gorda a porca já não anda, de muito usada a faca já não corta, como é difícil pai abrir a porta....  ( Milton Nascimento) ”

Ao final de mais uma década, o Congresso Nacional recepciona mais uma proposta de PNE ( Plano Nacional de Educação), que substituirá o último PNE que já nasceu desidratado, fraco e flácido nas mãos de FHC em Brasília, que inviabilizou mais recursos para educação, vetando todos os artigos que tratavam de investimentos novos. E o nosso Sergipe, que recebeu o velho plano no início dessa década pelas mãos de Albano Franco, ainda com cheiro neoliberal, e sequer deu cabo de fazer o seu PEE (Plano Estadual de Educação).

Albano, João e Deda não fizeram o PEE, uma década sem um plano estadual, uma geração que não planejou o seu futuro na educação. Faço esse preâmbulo para mostrar a importância que os governantes têm dado a educação do seu povo até agora, e como Sergipe se encarrega de piorar as coisas.

O nosso estado há anos vive um vazio de políticas públicas na educação, sobretudo para os ensinos fundamental e médio. Aqui nos acostumamos  a reproduzir políticas nacionais e copiar experiências regionais, sem o diálogo com os que terão de implementá-las, e sem  a audição dos que vão recepcioná-las, pois simplesmente, os que requentam a nossa educação, estão muito distantes das escolas, temem o debate, não querem ouvir, nem ousam ser ouvidos.

 A trilogia Seed- Diretorias Regionais – Escolas virou um turbilhão de trapalhadas, negação e omissão. Assim, sem projeto, sem planejamento,sem gerenciamento e sem diálogo todos se acusam e se defendem. Embora resista ainda a vontade de mudança por parte de muitos educadores e gestores, o ímpeto se esvai quando se deparam com a máquina enferrujada que regula a política de pessoal e de ensino da Seed, e pelos que lá foram alçados a postos importantes pelo QI, ou por aquele comissionado ousado pelo político que dita normas, fere princípios e arrasta a marinete ao precipício.

A estrutura da Seed de Sergipe é uma das mais antigas do Brasil. Não há uma legislação que redifina órgãos, função, quantitativo de pessoal, tamanho e alcance, isto, na contramão da política de educação nacional que passou por inúmeras alterações nessa década. A única definição é para as escolas, e a que parece mais fácil e menos perigosa é a de não deixar turmas funcionando com poucos alunos, mas o que fazer com os professores que não têm alunos e não estão nas escolas? A rede estadual de Sergipe tem mais professores em seu quadro do que há dez anos, paradoxalmente, temos bem menos alunos do que na última década. No entanto, as escolas continuam precisando de professores como o ar que respiramos. Alguma coisa está fora da ordem! Mas não perguntemos pelos jabutis, há os que são de ouro.

As nossas escolas vivem uma crise de gerenciamento. Jogadas à própria sorte, largam-se os diretores no caminho das Dre’s, em busca de bons presságios, quase sempre invisíveis. Há no papel um dinossauro criado por Albano Franco denominado de comitê comunitário, que é um faz de conta, ilegal, ineficiente, mas que o estado ainda insiste em mantê-lo como o espaço de administração dos recursos da escola. Não há comitê que funcione. Invariavelmente são os  diretores  que direcionam e redirecionam  as compras e mancamente vão arrastando a escola ao seu destino final.  As escolas não constituem uma comunidade escolar. Os professores, funcionários, pais e alunos não se conhecem. Não há debate sobre sua vocação, não se sabe o seu rendimento, muito menos seu regimento. Não existe uma constituinte escolar.

A ausência de uma gestão democrática tem custado muito ao sistema. É impressionante como somos os mais atrasados nisso. Há um debate falso que se tenta passar para a sociedade que a eleição para diretor poderia partidarizar as escolas, e que a meritocracia seria a saída. Não devemos abrir mão da liderança na condução de um projeto transformador para as escolas, mas temos a clareza de que este líder precisa estar bem formado para enfrentar os desafios de gerir uma escola. Uma coisa não é incompatível com a outra. O acúmulo de conhecimento sem a possibilidade de estabelecer relações democráticas nas escolas, pode redundar em um exercício perigoso de vaidade e de autoritarismo.

Há muito ainda a debater, questões que envolvem transporte, alimentação escolar, e valorização do professor serão tratadas aqui nesse espaço. Os desafios são imensos, e esperamos que no segundo governo de Marcelo Déda a esperança sobreviva ao desencanto, e que a educação seja de fato tratada como algo estratégico. Que o bom senso prevaleça! “ ... De que adianta ser filho da santa? melhor seria ser filho da outra, outra realidade menos morta....”