Sem esquecimento, sem perdão, sem temor

Escrito por Valter Pomar Ligado . Publicado em Valter Pomar

Publicado originalmente no site da Carta Maior

Muitos de nossos amigos latino-americanos não conseguem entender por qual motivo os governos brasileiros pós-ditadura pegaram tão leve com aqueles que romperam com a legalidade, sequestraram, torturaram, mataram e desapareceram.


Neste quesito, os governos pós-ditadura na Argentina, Chile e Uruguai foram muito mais efetivos no combate aos crimes das ditaduras, do que os governos Sarney, Collor, FHC e Lula.

Nossos amigos não entendem, e muitos de nós tampouco entendem, paradoxos como a convivência, no mesmo governo, de uma presidenta que foi presa e torturada, com um general para quem fato histórico é codinome para crime que merece ser perdoado. Ou de ministros que defendem a Comissão da Verdade, com outros para quem a Lei da Anistia imposta pela ditadura permite que autores de crimes contra a humanidade escapem de julgamento.

A persistência desta situação revela, mais do que a força da direita, a incapacidade que parte da esquerda tem de perceber os riscos que corremos ao agir desta forma. Afinal, o golpe de 1964 não é apenas passado, nem foi apenas obra de generais hoje aposentados e mortos.

O golpe de 1964 foi a resposta dada por uma parte da elite brasileira, contra um governo progressista. Foi uma das batalhas da guerra travada, ao longo de todo o século XX, entre as vias conservadora e progressista de desenvolvimento do capitalismo brasileiro.

A via conservadora é aquela que desenvolveu o capitalismo, preservando os piores traços de nosso passado escravista e colonial. A via progressista é aquela que buscou e busca combinar crescimento capitalista, com reformas sociais, democracia política e soberania nacional.

O golpe de 1964 foi executado por uma coalizão cívico-militar. Os militares foram o partido armado do grande empresariado, do latifúndio e dos capitais estrangeiros. Muitas das empresas envolvidas no golpe, ou que cresceram durante o período da ditadura, seguem atuantes. As Organizações Globo, por exemplo.

Hoje, prossegue a guerra entre aquelas duas vias de desenvolvimento. O governo Dilma, assim como o governo Lula, constituem expressões atuais da via progressista. E a campanha reacionária feita por Serra, nas eleições presidenciais de 2012, traduziu os sentimentos e os interesses dos legítimos defensores da via conservadora (alguns dos quais, é bom dizer, buscaram e encontraram abrigo do lado de cá).

Quando um deputado diz ter saudade da ditadura militar, quando um candidato presidencial se alia a generais de pijama e a organizações de ultra-direita, quando um ditador é homenageado por uma turma de formandos de uma escola militar, quando um ministro diz que a Anistia impede a justiça de apreciar crimes contra a humanidade, não estamos diante de saudosismos inconsequentes.

Estamos, isto sim, vendo e ouvindo uma parte da elite brasileira dizer o seguinte: quebramos a legalidade e algum dia poderemos voltar a quebrar; desconsideramos a voz das urnas e algum dia poderemos voltar a desconsiderar.

Uma esquerda que defende os direitos humanos de maneira consequente, deve lembrar que a impunidade dos torturadores de ontem, favorece os que hoje torturam presos ditos comuns. Uma esquerda que defende uma via eleitoral, tem motivos em dobro para ser implacável contra os que defendem a legitimidade de golpes. E uma esquerda que se pretende latinoamericanista precisa lembrar que o golpe de 1964 foi, em certo sentido, o início de um ciclo ditadorial que se espalhou por todo o continente.

E que ninguém ache que golpes são coisas do passado. Honduras, bem como as tentativas feitas no Equador e Venezuela, Bolivia e Paraguai, mostram que os Estados Unidos e parte expressiva das elites locais têm uma visão totalmente instrumental da democracia. E o reacionarismo atual de parte das chamadas classes médias não deixada nada a dever frente aquele que mobilizou, em 1964, as marchas com Deus, pela Família e pela Propriedade.

Por tudo isto, temos todos os motivos para dar o exemplo. Como nossos amigos de outros países da América Latina, não devemos temer, não podemos esquecer e não podemos perdoar.

(*) Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT

O time que começa jogando

Escrito por Valter Pomar Ligado . Publicado em Valter Pomar

No dia 22 de dezembro, a presidenta Dilma Rouseff anunciou os dois últimos integrantes de seu ministério. A primeira constatação: trata-se de um governo de coalizão política, com ministros e ministras de 7 partidos diferentes, predominantemente do Partido dos Trabalhadores e do Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Em comparação com o ministério com que Lula iniciou seu segundo mandato, o PT ocupa mais pastas e gerencia maiores orçamentos. Com um detalhe importante: desta vez, as principais tendências do PT estão representadas (CNB, Mensagem ao Partido, Movimento PT e Articulação de Esquerda), diferente dos oito anos de governo Lula, de cujo ministério a tendência Movimento PT nunca fez parte.

A segunda constatação: com maior ou menor êxito, o ministério de Dilma buscou contemplar (além dos partidos) uma variável regional e uma variável de gênero. No quesito regional, a presença de petistas dos estados do Nordeste é menor do que a importância eleitoral desta região. Por outro lado, registramos com muita satisfação a presença de 9 ministras. E tomamos nota do seguinte: o PT foi o único partido da coalizão a indicar mulheres.

Uma terceira constatação: deste ministério não fazem parte representantes diretos do empresariado (como Furlan e Meirelles). Aliás, há que se comemorar que Meirelles não seja mais presidente do Banco Central. Ainda que se deva manter sob vigilância Antonio Palocci, o sinal é que parece que haverá mais harmonia na condução da política econômica. Por outro lado, alguns dos indicados pelos partidos aliados “prometem”: Rossi, Garibaldi etc. O caso politicamente mais preocupante é o caso de Nelson Jobim; já sabíamos que ele tinha uma postura conservadora tanto no tema “direitos humanos”, quanto no trato das forças armadas; agora o Wikileakis nos revelou que ele tricota com os gringos.

Um quarto ponto, positivo, é a presença de petistas a frente de pastas estratégicas para a disputa de hegemonia (tais como cultura e comunicação) e para o atendimento das grandes necessidades sociais (exemplos: saúde, educação, desenvolvimento social). Cabe ao PT, em sintonia com a presidente, orientar estes ministros para que cumpram as devidas diretrizes programáticas.

Entre as ministras petistas, comemoramos especialmente a presença da deputada federal capixaba Iriny Lopes, eleita pelo PT do Espírito Santo e militante da Articulação de Esquerda, convocada para ser ministra das Mulheres.

Nos próximos artigos que escreverei para esta coluna, farei uma análise mais detalhada de cada ministro, bem como da composição do segundo escalão do governo. Por enquanto, o fundamental é ter claro que o governo Dilma começa com uma grande expectativa popular, expectativa que foi criada por nós mesmos: a de que continuaremos mudando o Brasil e, portanto, que o mandato 2011-2014 será superior aos dois mandatos anteriores de Lula.

Para dar conta desta expectativa, é importante que este ministério sofra alterações ao longo dos próximos quatro anos, de preferência o mais rápido possível. Entre as mudanças, além das estritamente políticas, cito também a nomeação de mais negros e negras para o ministério.

A eleição de Dilma Roussef não encerra a luta contra a influência do neoliberalismo no Brasil; tampouco encerra a disputa entre a via conservadora e a via democrática de desenvolvimento. Ao contrário, ambas as disputas tendem a se aprofundar ao longo da gestão Dilma, por iniciativa da oposição de direita, da esquerda político-social ou do próprio governo.

A coligação governista possui uma ala esquerda, que deve ser encabeçada pelo PT. Esta ala esquerda deve continuar a luta contra o neoliberalismo e em favor do desenvolvimento com soberania, integração continental, aprofundamento da democracia e ampliação das políticas sociais. A ala esquerda da coligação governista também deve impulsionar a luta por reformas estruturais, articulando isto com nossa luta pelo socialismo. Bem como travar a disputa em favor de uma cultura de esquerda. Se tivermos êxito neste conjunto de frentes, o governo Dilma será superior ao governo Lula, assim como o segundo governo Lula foi superior ao primeiro governo Lula. Claro que isto dependerá, também, da atuação de Lula, já como ex-presidente; e também da atuação do Partido dos Trabalhadores, demais partidos de esquerda e movimentos sociais.

No que toca ao PT, um ótimo sinal foi dado pela bancada federal do Partido, no processo de indicação do candidato do PT à presidência da Câmara dos Deputados. Foi ótima a desistência de Cândido Vacarezza, précandidato tido como imbatível e que mesmo antes de eleito já fazia acenos para o PMDB e outros setores, incluindo nestes acenos uma vergonhosa entrevista na revista Veja. Esperamos que novos sinais sejam dados pela direção nacional do Partido e pelo congresso que o PT realizará em setembro de 2011.

Valter Pomar: Mui amigo

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Valter Pomar

A Carta a um amigo petista (leia ao final), escrita por Frei Betto em 15 de vpomarjunho de 2010, é um exemplar da sub-literatura de auto-ajuda.   

Notem: ele se dirige para alguém atormentado (!!!) pela confusão política, a quem oferece uma previsível imagem biblíca (Jonas e a baleia) e város lugares comuns acerca da política (a política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível).

Notem também: Betto contrapõe o conceito tomista de promoção do bem comum ao pragmatismo maquiavélico, cuja síntese seria a luta pelo poder. E caso alguém não tenha entendido a moral da história, Betto apela para o cabaré…

Feita esta introdução, Frei Betto lança a pergunta: o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem?

Notem: não é propriamente uma pergunta, é uma acusação (pois já está dito que o PT não é fiel) e um método de análise (o que importa é ser fiel).

Mas o que é mesmo ser fiel, 30 anos depois?

Não ter ninguém envolvido em maracutaias, como se isto fosse possível, nos primeiros 30 dias ou nos primeiros 30 anos de vida de um partido político? Ou acreditar que eram os núcleos de base que davam legitimidade às posições do PT???

Seja lá o que consideremos fidelidade, uma resposta decente envolveria debater programa, estratégia, tática, correlação de forças. Assuntos difíceis demais para alguém que parece desprezar por definição a luta pelo poder.

Aliás, Betto é muito modesto: ele nunca foi filiado a nenhum partido, mas influenciou no PT muito mais do que gostaria de admitir, até porque sempre transitou nos círculos de poder do Partido, defendendo posições que têm relação com coisas que hoje condena.

Vide seu orgulho em ser um indivíduo não governamental, postura assumida nos anos 90 por tantos e que está na origem de muitas das deformações exibidas pelo partido e por seus dirigentes, hoje.

Betto recomenda a seu amigo que permaneça no PT. Defende a coisa certa, mas com argumentos para lá de errados, conservadores e envergonhados.

Notem o que ele diz: não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido. Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho. Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

Primeiro, o mesmo que vale para um país, não vale para um partido. Fosse correto este raciocínio, estaríamos no PC ou no PTB. A decisão sobre tentar mudar um partido ou construir outro partido, está relacionado a critérios políticos, programáticos, estratégicos.

Segundo, um partido não é uma igreja, embora muitas igrejas sejam partidos disfarçados. Um partido não se une em torno de princípios de fé, mas sim em torno de posições político-ideológicas. Por outro lado, igrejas também sofrem cisões.

Terceiro, a decisão de ficar num partido não pode ser baseada, apenas ou principalmente, no fato de que há outros quem pensam como nós dentro do Partido. Este é um raciocínio de seita, não um raciocínio político. A questão deve ser outra: qual o papel que meu partido está cumprindo na luta de classes? É isto, e não a existência de insatisfeitos-como-eu que pode justificar (ou não) a continuidade num partido.

Quarto, a fragmentação da esquerda pode ajudar a direita, mas as vezes a divisão da esquerda também pode ser útil e indispensável para derrotar a direita. A defesa da unidade desprovida de conteúdo é algo conservador e moralista, além de revelar que o defensor não está muito convicto. As pessoas devem ficar no PT porque o PT joga um papel positivo na luta de classes hoje, não por medo de dividir a esquerda. Pois o PT, quando surgiu, fez exatamente isto e disso não nos arrependemos, pois naquele momento dividir era preciso.

Quinto, propor ao militante que se comporte como eleitor, cobrando compromissos públicos de seus candidatos, é uma das irônicas consequências de um discurso que não enfrenta os temas políticos, da luta pelo poder.

O principal problema do PT não é ter protagonistas que se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro. Isto é consequência, não causa, da confusão de tática com  estratégia. Aliás, não se trata propriamente de uma confusão, mas sim de diferentes estratégias.

Tema que não se resolve apelando para uma salada composta por credibilidade ética, partido como expressão política dos movimentos, os mais pobres e a luta por reformas estruturais.

Valter Pomar


A seguir a carta de Frei Betto

Carta a um amigo petista

Escrito por Frei Betto

 

15-Jun-2010

 

Meu caro: sua carta me chegou com sabor de velhos tempos, pelo correio, em envelope selado e papel sem pauta, no qual você descreve, em boa caligrafia, a confusão política que o atormenta.

Pressinto quão sofrido é para você ver o seu partido refém de velhas raposas da política brasileira, com o risco de ser definitivamente tragado, como Jonas, pela baleia… Sem a sorte de sair vivo do outro lado.

A política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível. O sábio italiano foi mais longe: eximiu a política de qualquer virtude e livrou-a de preceitos religiosos e princípios éticos. Deslocou-a do conceito tomista de promoção do bem comum para o pragmatismo que rege seus atores – a luta pelo poder.

Você deve ter visto o célebre filme “O anjo azul” (1930), que imortalizou a atriz Marlene Dietrich e foi dirigido por Joseph von Stemberg e baseado no livro de Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. É a história de uma louca paixão, a do severo professor Unrat (Emil Jannings) por Lola-Lola, dançarina de cabaré. Ele tanta aspira ao amor dela, que acaba por submeter-se às mais ridículas e degradantes situações. Torna-se o bobo da corte. Nem a cortesã o respeita. Então, cai em si e procura voltar a ser o que já não é. Em vão.

Me pergunto se o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem. Hoje, ele luta por governabilidade ou empregabilidade de seus correligionários? É movido pela ânsia de Construir um Novo Brasil ou pelo projeto de poder? Como o professor de “O anjo azul”, a paixão pelo poder não teria lhe turvado a visão?

Você se pergunta em sua carta “onde o socialismo apregoado nos primórdios do PT? Onde os núcleos de base que o legitimavam como autorizado porta-voz dos pobres? Onde o orgulho de não contar, entre seus quadros, com ninguém suspeito de corrupção, maracutaias ou nepotismo?”.

Nunca fui filiado a nenhum partido, como você bem sabe e muitos ignoram. É verdade que ajudei a construir o PT, mobilizei Brasil afora as Comunidades Eclesiais de Base e a Pastoral Operária, participei de seus cursos de formação no Instituto Cajamar e de seus anteparos, como a Anampos e o Movimento Fé e Política.

Prefeitos e governadores eleitos pelo PT me acenaram com convites para ocupar cargos voltados às políticas sociais. Tapei os ouvidos ao canto das sereias. Até que Lula, eleito presidente, me convocou para o Fome Zero. Aceitei por se destinar aos mais pobres entre os pobres: os famintos.

O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei o meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não Governamental. Tudo isso narrei em detalhes em dois livros da editora Rocco, “A mosca azul” e “Calendário do Poder”.

Amigo, não o aconselho a deixar o PT. Não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido.

Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho.

Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Quando o faz, perde o respeito a si mesmo, como o professor de “O anjo azul”. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita.

A história não tem donos. Muito menos os processos libertadores. Tem, sim, protagonistas que não se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro ou função. Nunca confunda alianças táticas com as estratégicas. Ajude o PT a recuperar sua credibilidade ética e a voltar a ser expressão política dos movimentos sociais que congregam os mais pobres e as bandeiras que exigem reformas estruturais no Brasil.

Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos.

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – twitter – @freibetto

O 1º de maio no Jornal Nacional

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Valter Pomar

Imagine um trabalhador brasileiro, no centro da sua casa – onde geralmente fica a tv - na noite da última sexta-feira, dia 1o de maio, feriado e relaxado, assistindo ao Jornal Nacional, da TV Globo. Não há como não passar a crise pela cabeça.

Além das reportagens sobre a gripe suína e dos 15 anos da morte de Ayrton Senna, que o levam do pânico às lágrimas, ele recebe informações de uma longa matéria (formada por três longos blocos) sobre as “comemorações” do 1o de maio no Brasil, Dia do Trabalho. É assim que a Globo trata a data: comemorações e dia do trabalho, e não do trabalhador.

Todo ano é assim. A grande mídia segue o mesmo roteiro. E neste, não foi diferente. A reportagem do Jornal Nacional começa mostrando que no Brasil o 1o de maio é comemorado com muita festa em São Paulo. Muita festa promovida pela Força Sindical. Esta é uma central sindical que nasceu e se firmou como o braço público dos empresários, isto é, uma central apoiada abertamente pelos patrões e pelo capital.

São milhões de pessoas a chorar de emoção com os principais e mais caros cantores brasileiros no palco da Força Sindical. A multidão via aos céus quando sobe ao poderoso palco o padre Marcelo Rossi. Os líderes da central sindical, de braços dados com os patrões e com os governos, pedem a redução dos juros, que beneficiam principalmente os empresários.

Depois da ampla reportagem com a Força Sindical, mostrando a estrutura, a tecnologia, à segurança, e ainda festejando o sorteio de carros, foram 20, e apartamentos (meio milhão de reais em prêmios) para os trabalhadores que gritavam com o cantor Leonardo, a reportagem mostra o ato da outra central, a CUT nacional.

”Este ano a CUT resolveu fazer uma festa diferente”, dizia a repórter. Em vez de mostrar atos públicos e as festas com cantores, a reportagem mostra que a central virou uma grande prestadora de serviços: no 1o de maio, trabalhadores fizeram massagens relaxantes, tratamento de beleza, participaram de jogos, fizeram exames e tiraram documentos. Nas imagens, meia dúzia de gente e nenhum ponto de reivindicação. Para quê? A nova aparência fará o milagre do emprego aparecer.

Calma, mas o 1o de maio no Brasil que o Jornal Nacional mostrou não se deu apenas em São Paulo e nem apenas com centrais sindicais. A reportagem, no segundo bloco, exibiu cenas das festas do 1o de maio em outros lugares, mas em todos eram missas, atos religiosos e festa mesmo.

Em um trecho da matéria, os fiéis (e não trabalhadores) entregavam a Deus suas carteiras de trabalho. Uns pediam proteção divina para que não sejam demitidos e outros, também com as carteiras de trabalho sendo bentas, pediam que caísse do céu um emprego. A reportagem ainda mostrou no Paraná o 1o de maio comemorado com um gigantesco churrasco.

Para finalizar a grande matéria do Jornal Nacional, foi mostrado no terceiro e último bloco o 1o de maio pelo mundo: protestos, caminhadas, ações violentas, confronto com a polícia, etc, etc e etc. Na Turquia, na Grécia, no Japão enormes manifestações e embates com a polícia. Na França mais de 1 milhão de pessoas reunidas por oito centrais sindicais.

Mas claro, a rede Globo não podia deixar de mostrar o 1o de maio na Venezuela. Diferente dos outros países onde ocorreram manifestações violentas e confronto com a polícia e os governos locais não foram responsabilizados, na Venezuela, dizia o texto da reportagem, o presidente Hugo Chavez reprimiu manifestantes da oposição e dos sindicatos.

Diante dessas informações, do som e das imagens a que conclusão chega o trabalhador brasileiro? Que o 1 de maio aqui é...?

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PARA FAZER JUSTIÇA

Para fazer justiça, a CUT/SE fez uma grande caminhada em Aracaju para lembrar o Dia do Trabalhador. Mesmo diante da forte e insistente chuva, os trabalhadores saíram às ruas com suas bandeiras vemelhas e mantiveram acessa à luta por uma outra sociedade.
Veja a pauta que mobilizou os trabalhadores sergipanos:

- o trabalhador NÃO vai pagar a conta da crise econômica;
- pela correção do reajuste dos servidores públicos de Aracaju;
- pela volta das atividades da Mesa de Negociação Permanente;
- contra a tarifa abusiva de ônibus urbano em Aracaju;
- redução da jornada de trabalho sem redução de salário;
- reforma agrária e urbana com construção de moradias populares;
- defesa do serviço público: educação e saúde pública, gratuita e de qualidade para todos;
- defesa do meio-ambiente, contra os transgênicos;
- NÃO à transposição do Rio São Francisco;
- valorização do salário mínimo e das aposentadorias;
- reposição das perdas salariais;
- reforma agrícola com investimentos na agricultura familiar;
- contra todas as formas de discriminação e opressão racial, homofóbica e sexista;
- pela anulação do leilão da privatização e pela reestatização da Vale do Rio Doce;
energia com tarifa social;
- pela democratização dos meios de comunicação;
- o fim da impunidade e da corrupção;
- NÃO à violência no campo e na cidade;
- contra o imperialismo e pela autodeterminação de todos os povos do mundo.

Homenagem a Augusto Boal

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Valter Pomar

Segue abaixo um texto do Augusto Boal, um dos maiores artistas brasileiros dos séculos XX e XXI, que morreu no último final de semana. Já deixa saudade, mas estará vivo onde houver a busca inconformada da arte pela verdade de um mundo mais humano, mais verdadeiro.

"Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática --tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa --nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.
Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: - 'Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida'.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento --é forma de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!"