“Sem união seremos engolidos”: professor Miguel Arroyo reflete sobre docência e resistência em mesa de abertura da XVI Conferência Estadual de Educação

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Uma fala que convidou a repensar a docência, a militância, a reinventar a luta sindical, em tempos de desmonte do Estado de Direito. Uma fala que chamou a classe trabalhadora a se unir para não ser “engolida” por um Estado que hoje é nosso inimigo, que nos trata como mercadorias.

Assim foi a linha da fala do professor Dr. Miguel Arroyo durante a mesa de abertura da XVI Conferência Estadual de Educação, promovida pelo SINTESE. Miguel Arroyo, que é professor titular emérito da faculdade de educação da UFMG, foi convidado para falar sobre o tema da Conferência: “100 anos de Paulo Freire: Resistir e Esperançar Frente às Políticas Públicas de Desmonte da Educação Pública” 

O professor fez uma análise sobre o desmonte do Estado de Direito e seus reflexos na vida e no dia a dia de nossas escolas, professores, estudantes e de suas famílias. Trazendo uma série de questionamentos, Miguel Arroyo, convocou os presentes a refletir sobre o momento político e histórico que estamos vivenciando.

Entre suas indagações, levantou o questionamento de como o desmonte do Estado vem afetando os educandos e da necessidade de professores e professoras se unirem e fortalecer a resistência popular.

“Nossos educandos são vistos como coisas, com mercadorias. Precisamos explicar isso para eles, para os seus pais. Precisamos nos articular com os movimentos populares, com os movimentos sociais, com o movimento negro, com o movimento das mulheres. Essa deve ser nossa postura política, a de fortalecer a resistência popular, lado a lado com nossos educandos e suas famílias”, enfatiza o professor.

Miguel Arroyo alertou ainda que os direitos em nossa história são frágeis, que o direito à educação pública é frágil e que a destruição de direitos ao longo de nossa história (e neste momento histórico) não é um acidente.

“Apesar de falarmos de um Estado de Direito, na maior parte da nossa história esse foi um Estado de negação de direitos, sobretudo do direito à educação, e isso não é um acidente, é um projeto”, analisa.

O docente em sua fala ainda apontou sobre as desigualdades presentes na educação e com elas ficaram gritantes no período auge da pandemia de covid -19. Escancarando as desigualdades sociais mais profundas, deixando evidente que a desigualdade de classe, de gênero, de cor da pele, de região é determinante para a desigualdade educacional.

O professor chamou também a reflexão de como este momento de desmonte de direitos, de seres humanos sendo tratados como “mercadorias”, de uma justiça justiceira, afeta os educadores e educadoras.

Para Miguel Arroyo os professores e professoras devem se manter tendo a compreensão de que esse Estado, que nos coisifica e transforma em mercadorias, é o inimigo e por tanto é fundamental que o magistério repense suas formas de luta, resistência e fortalecimento dos movimentos sindical e sociais.

“Não adianta gritar ‘educação é direito nosso, dever do Estado’. Afinal de que ‘Estado’ estamos falando? Do Estado que está aí? Desse Estado não temos nada a esperar. Por isso, precisamos fortalecer o movimento sindical, os movimentos sociais porque senão fortalecemos cada um seremos fracos. Sem união seremos engolidos”, afirma de forma taxativa.

E para finalizar o professor Miguel Arroyo lembrou aos presentes que toda a docência é humana ou a docência se perde. “Somos profissionais de seres humanos e de seres humanos em processos brutais de desumanização. E precisamos falar sobre essa desumanização, entender o nosso papel na quebra desse ciclo, entender o papel da escola. A escola é mais que uma escola, escola é lugar de vida e salva vidas ameaçada”, reflete.

Conferência

A XVI Conferência Estadual de Educação continua. E nesta sexta-feira, dia 26, as mesas vão acontecer no período da manhã e da tarde. Lembrando que a nossa Conferência acontece de forma virtual, pela plataforma Zoom.

Confira a programação desta sexta-feira

26/11 – sexta-feira – 09h às 12h

– O DESMONTE DO ENSINO MÉDIO PÚBLICO JÁ ESTÁ EM CURSO

Palestrante: Prof. Dr. Fernando Cássio (UFABC)

– PROJETOS DE VIDA, NECROPOLÍTICA E PRÁTICAS CURRICULARES DE RESISTÊNCIA

Palestrante: Profa. Dra. Iris Verena Oliveira (UNEB)

Mediação: Ivônia Ferreira (Diretora depto. bases municipais do SINTESE)

 26/11 – sexta-feira – 14h às 17h

– A IMPORTÂNCIA DO LEGADO DE PAULO FREIRE

Participação especial: Profa. Dra. Nita Freire

– PAULO FREIRE E AS AFRICANIDADES NA EDUCAÇÃO: UMA EXPERIÊNCIA DO ESPERANÇAR NO COTIDIANO ESCOLAR

Palestrante: Prof. Wilson Queiroz (Professor da rede municipal de Campinas/SP. Doutorando em Educação pela UNICAMP)

Mediação: Edinalva Mendes (Diretora depto. de Educação do SINTESE)