Ribeirinhas do Baixo São Francisco reúnem 150 mulheres na luta por empoderamento

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A luta contra a fome, o cuidado com a saúde feminina, o saber popular fitoterápico e a batalha diária da mulher contra o machismo para fazer valer os direitos conquistados ‘no papel’. Essas foram as temáticas discutidas no evento ‘Nem bruxas nem fadas: mulheres unidas resgatando e construindo histórias’, que aconteceu na beira do Rio São Francisco, na Chácara da Tia Cida, no povoado Saramen, município de Brejo Grande.

A anfitriã Cida, presidenta da Associação de Ribeirinhas e Ribeirinhos do Povoado Saramem Brejo Grande, afirmou que vai lutar para conseguir construir a sede da associação para que as mulheres não tenham que continuar se reunindo embaixo das árvores. Cida também disse que a associação precisa de um carro e ela contou a dificuldade enfrentada recentemente para transportar ao hospital mais próximo um rapaz que se acidentou no povoado.

A atividade feminista foi organizada pela Associação de Ribeirinhas e Ribeirinhos do Povoado Saramem Brejo Grande, com o apoio e participação das mulheres do povoado de Pindoba-Neópolis, Associação de Mulheres e Homens Pescadores de Nossa Senhora Aparecida (Povoado Serrão, no município de Ilha das Flores), Movimentos das Marisqueiras de Sergipe, a CUT (Central Única dos Trabalhadores), o Sintese, o São Francisco Vivo, o Sindicato das Domésticas, a Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste, a Fetase, a Articulação Brasileira de Agreoecologia (ABA), a Marcha das Margaridas(MM), a Rede Sergipana de Agroecologia (RESEA), a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e a Marcha Mundial das Mulheres (MMM).

A parteira Chica do MOPS trouxe a riqueza do conhecimento popular da região do Baixo São Francisco para enriquecer a conversa, além de sua própria experiência de vida. Chica parteira falou sobre várias plantas encontradas na região, tirou dúvidas e explicou como as pessoas podem utilizar essas plantas em benefício de sua saúde.

“A minha escola e a minha faculdade é da necessidade humana. Fui andando no mundo e fui vendo a necessidade das companheiras, a valentia que as mulheres aprenderam pela necessidade. Era tanta ignorância que fomos aprendendo a sermos ignorantes pelos nossos direitos e pelas nossas necessidades, por querer viver melhor. Estamos aqui porque somos mulheres de coragem. E a gente atravessa tudo é com o nosso atrevimento. Nós não somos escravas de ninguém”, declarou Chica.

A professora de Direito Shirley Andrade falou sobre direitos da mulher e as dificuldades de colocar em prática o que já foi conquistado legalmente e que a cultura machista no Brasil impede que direitos conquistados sejam cumpridos.

A agrônoma Amanda Moura da RESEA abordou a temática da fome, uma triste realidade enfrentada nas comunidades ribeirinhas e apontou a agroecologia como alternativa para driblar o problema da fome e garantir mais autonomia às mulheres. Representante da Fetase, Cleide Mathias fez um chamado para a Marcha das Margaridas que vai reunir agricultoras rurais de todo o Brasil no mês de agosto em Brasília.

A diretoria da CUT esteve presente representada pelos dirigentes Quitéria Santos, João Fonseca e Joelma Dias, que também participou da atividade representando a Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Joelma Dias falou sobre a necessidade de denunciar os casos de violência doméstica na comunidade, ressaltou a importância da união e destacou que a CUT Sergipe está presente nesta luta, inclusive filiando associações de pescadoras e marisqueiras para fortalecer e empoderar essas trabalhadoras.

A diretoria do SINTESE também participou da atividade representada pela professora de Neópolis Anieide Fontes da Coordenação da Subsede do Sintese na Região do Baixo São Francisco, e pelo professor Dudu, ex-presidente da CUT Sergipe.

Filiada à CUT, a presidenta da Associação de Mulheres e Homens Pescadores de Nossa Senhora Aparecida (Povoado Serrão, no município de Ilha das Flores) Zilda Sousa, explicou que quanto mais a mulher mora em localidades distantes mais ela necessita de apoio e de se organizar em associações, pois através dessas associações, é possível fazer valer o seu direito.

O dia de debates e luta foi idealizado e produzido pela militante social da Economia Solidária e da ANA, Divaneide Sousa, também conhecida como Diva ou Didi. “Quando eu vejo Cida com essa turma de mulheres e ouço a história dessas mulheres, eu quero contribuir de alguma forma. Eu quero levantar essas mulheres para que elas tenham uma vida melhor. Nós precisamos de uma sede. A gente se reune assim: embaixo da árvore. Me ajudem a fortalecer essas mulheres que precisam levantar a sua auto-estima, ter saúde, comida na mesa e uma vida digna”, declarou.

Divaneide afirmou que o evento desse sábado é o primeiro passo para a construção de um projeto sustentável de geração de renda para a Associação de Ribeirinhas e Ribeirinhos do Povoado Saramem, em Brejo Grande.