Na rápida solenidade de posse no Palácio dos Bandeirantes, Geraldo Alckmin, que governará São Paulo pela terceira vez, deve ter deixado encafifado José Serra, que ainda curte nas madrugadas a derrota na eleição presidencial. Em seu pronunciamento de 23 minutos, ele afirmou que “vamos ter com a presidente Dilma a melhor das relações”. Até a Folha de S. Paulo, palanque do demotucano na disputa eleitoral, registrou o incomodo:
“Geraldo Alckmin assumiu o governo de São Paulo personificando o novo discurso do PSDB. Ontem, em sua posse, defendeu o legado da sigla, mas pregou ‘inovação’, com ênfase em políticas sociais, além de parceria com Dilma Rousseff… A ênfase na cooperação entre governos e o foco em políticas sociais presentes no discurso de Alckmin coincidem com a teoria da refundação da sigla, do senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG)… Ontem, a promessa de colaboração com o governo federal foi feita diante do ex-governador José Serra (PSDB)”.
Sinais na montagem do secretariado
Há vários sinais de que o novo governador descarta o desleal concorrente do seu próprio partido. Na disputa pela prefeitura da capital paulista, em 2006, Serra rifou o PSDB, deixou Alckmin pendurado na brocha e bancou o demo Gilberto Kassab. A convivência, que já não era boa, azedou de vez. Na seqüência, ambos tentaram manter as aparências. Serra até convidou o “traído” para o seu secretariado. Mas os dois tucanos não se bicam – ou melhor, se bicam.
Na montagem do seu secretariado, Alckmin já demonstrou que quer distância dos serristas. Ela nomeou tucanos que ficaram com ele na disputa interna do partido. É o caso de Edson Aparecido, um aliado histórico, e de Andrea Matarazzo. Este é amigo de Serra, mas foi um dos poucos tucanos que não seguiu as ordens do chefão autoritário e apoiou Alckmin na eleição para prefeitura da capital paulista.
“Maior obstáculo” ao PSDB
Prova maior deste distanciamento, porém, foi a indicação de dois aliados de Gabriel
Chalita, que rompeu com o PSDB e se elegeu deputado federal pelo PSB. Durante a campanha presidencial, o ex-tucano ajudou a comandar a campanha de Dilma e foi um dos mais ácidos críticos de Serra. Chalita é tido como um inimigo pelos serristas, mas influenciou a nomeação dos secretários da Educação (Herman Voowald) e do Desenvolvimento Social (Paulo Alexandre) do governo Alckmin.
Com esses lances, o novo governador de São Paulo sinaliza que deseja se projetar no PSDB e isolar o rival, que ainda insiste em ser candidato em 2014. Como observou o próprio Estadão, Serra é visto hoje por vários analistas políticos como o “maior obstáculo para a reorganização do PSDB”. O partido está sem discurso e sem norte. Elegeu oito governadores, que devem adotar uma postura pragmática diante do governo federal, e viu sua bancada federal ser reduzida de 65 para 53 deputados. Alckmin sabe que precisa virar essa página e não está disposto a alimentar cobras.






