Navalha e imprensa: e se fossem os Pipitas?

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Ah se as pessoas soubessem como são construídas as “notícias”, da pauta, isto é, de sua definição, até a divulgação! Com certeza poderiam ter um outro olhar sobre a mídia e a sua realidade. Depois de quase um ano da realização da operação Navalha, depois da divulgação de uma série de conversas entre “altas autoridades” que revelam uma parte da grossa corrupção em Sergipe, depois de várias e justas manifestações de cobrança pela denúncia oficial dos responsáveis por um rombo gigantesco nas contas públicas, sai, então, a denúncia oficial do MPF, nome por nome, crime por crime, fato por fato. Até a íntegra da peça inicial é liberada e a maioria da imprensa local ou cala ou faz que fala baixinho sobre esse assunto, doida para que apareça outro para ocupar o seu lugar.

Foi curioso, muito curioso mesmo, escutar, assistir e ler em vária emissoras e jornais a divulgação da denúncia dos envolvidos na Navalha. A tônica foi a cautela, a preocupação em não acusar ninguém e o temor de falar de nomes e de fatos. Esse excesso de cuidado jamais foi visto quanto o assunto criminal se refere a pessoas pobres e organizações populares, pelo contrário, a regra que tem sido usada contra elas é a criminalização, condenação e a execução sem qualquer cautela e precaução, sem o mínimo inquérito policial aberto, usando-se da exposição sensacionalista de pobres, com objetivos meramente mercadológicos e políticos.

Essa “opção” da maioria da mídia local de não dar a devida importância que o caso Navalha merece junto a sociedade, afinal de contas são milhões e milhões de reais em recursos públicos que deixaram de ir para saúde e educação, é uma ação deliberada de proteção aos esquemas de poder econômico e político instalados em Sergipe. Os veículos de comunicação, em sua esmagadora maioria, são veículos desses mesmos esquemas, ou seja, têm lado, que não é o lado do interesse público. Por isso, alguns vão continuar omitido os fatos, um delito contra a sociedade; e outros fazem de conta que divulgam, geralmente de forma rápida, segmentada, superficial e carregado de ponderações.

Existe uma máxima nos bastidores da mídia que é infalível. Quando um assunto indesejado para a elite insiste em entrar na agenda da sociedade sem o controle direto da mídia, só outro assunto sensacionalista e de grande apelo popular para tentar reverter o primeiro quadro. Tudo isso ocorre sem que a população se aperceba. Por exemplo, o caso do assassinato da menina Isabella em São Paulo caiu como uma luva para o Governo Serra que estava envolto a um escândalo gigantesco. O secretário adjunto de Segurança Pública daquele estado foi flagrado negociando diretamente com o crime organizado. Então Serra e o esquema que o envolve foi blindado pelo cadáver insepulto da menina. Aqui em Sergipe, por exemplo, o estrondoso esquema de corrupção da Navalha foi, propositadamente, superado por uma gravação onde supostamente se acertavam pichações na cidade. É só isso que se fala e pronto.

Ganham grande repercussão na mídia a prisão de gente pobre com droga, a ocupação de terras e prédio abandonados, os roubos, furtos e crimes de pequena monta. Quando existe algum fato bizarro permeando essas história, mídia e Estado Policial se lambuzam e são implacável. A mídia entra de sola, faz campanha, condena e pede a execução, como aconteceu como o caso Pipita e tantos outros que ocorrem cotidianamente. O Estado se encarrega de executar para “garantir a ordem e a paz pública”. Tudo justificado! Os casos são inúmeros. Por exemplo, completou 11 anos em abril passado que duas senhoras foram abordadas por policiais no terminal rodoviário em Aracaju. Suspeitava-se que uma delas tinha ligação com um grupo de criminosos que atuava no Nordeste. Depois desse contato com as forças do Estado, elas sumiram e até hoje não se sabe onde enterraram seus corpos. E ficou por isso mesmo. E vai ficando assim. O detalhe: elas eram pobres e moravam no bairro América.

Ah se as pessoas soubessem como são construídas as “notícias”, da pauta, isto é, de sua definição, até a divulgação! Com certeza poderiam ter um outro olhar sobre a mídia e a sua realidade.

COMENTÁRIO RÁPIDO:

Banese no São João

Não demorou uma semana a “ameaça” do governador de não mais permitir que o Banese patrocinasse festas em prefeituras que tiraram do banco do estado a carteira de pagamento dos seus funcionários. O Banese vai despejar milhões e milhões de reais, anunciados hoje pelo próprio governador, em prefeituras que justamente passaram a resteira no Banese. Beleza!

cristiangoes@infonet.com.br