As medalhas olímpicas passam pela educação

Frederico Lisbôa Romão, Jornal do Brasil

 

RIO – Pablo Neruda, no seu Confesso que vivi, reafirma as belezas da Isla Negra, do seu Chile. Nós, meio que envergonhadamente, afirmamos: confesso que torci, torci contra a postulação do Brasil em sediar as Olimpíadas em 2016. Confesso que não foi uma torcida do coração; essa torcia a favor; mas a racionalidade nos empurrava a torcer contra, por um motivo simples mas profundo.

Ganhar o direito de sediar as Olimpíadas é uma espécie de prêmio a esse país rico, mas de um povo que vive na miséria, imerso na violência urbana e rural. Que tem subtraídos seus mais basilares direitos de cidadania, desde as pradarias gaúchas aos majestosos arvoredos da Amazônia, que sofre sob o sol causticante do Nordeste, e falta-lhe na fartura do cerrado central.

País que tripudia sobre os direitos elementares das classes populares. Rico país detentor de elite reacionária, corrupta, covarde, patrimonialista e adjetivos outros tantos similares. Alguém há que perguntaria: que elite? A resposta é plural: elite econômica, social, a elite acadêmica, artística, cultural, desportiva – todas coniventes, em maior ou menor grau, com o índice de desvios e de desigualdades brutais que os senhores e senhoras membros dessas elites, e como tal, viajantes do mundo, sabem não existir em nenhum outro lugar decente. Somente mentalidades tão indecentes se regozijam com administrarem um povo assim tão grotescamente!

Os que pensarem que aqui se está carregando nas tintas são convidados a ler Manoel Bomfim ou, sendo preguiçosos, fazer simplesmente comparações entre o comportamento dos Brazil’s líders e o que ocorre no resto do mundo. Busquem-se as ações de envergadura dos nossos contra esse estado de coisas, e encontrarão a aridez do Saara. Exceções existem: Chico Buarque, dom Tomás Balduino, Paulo Arantes, Azi Ab’Saber, quantos pouquíssimos mais??

Apesar da torcida meio que a contragosto, as falas pela televisão de alguns dos nossos medalhistas mundiais nos despertaram a possibilidade de que algo de bom pode acontecer, trazido pelo fato de sediar os Jogos Olímpicos. Ah, serão os milhões de investimentos que entrarão? Ora, em absoluto não é isso! Grosso modo, o problema da nossa nação, se é que podemos usar o conceito de nação, nunca foi falta de riqueza, potencial e/ou monetária. Dinheiros e recursos naturais, sempre por aqui vicejaram. O pré-sal não é exceção! A nossa questão é bem outra, como diria João Doido, filósofo em Juazeiro da Bahia: “O buraco é lá no fundo do rio”.

O que as falas de João Quirino, André Nascimento, Maurin Maggi nos despertaram é que o fato de sediar os Jogos pode obrigar as nossas usurpadoras e usurentas elites a, pela primeira vez, se abrirem, se não por motivos mais nobres, ao menos para não passarem vexame ante o mundo civilizado, e investirem para que não fiquemos em vergonhosa lanterninha.

E como eles – elite e o mundo – sabem, as medalhas de ouro nos esportes são resultado do ouro investido na educação do povo. Todas as nações vencedoras no esporte possuem um sistema educacional substantivo. Por conseguinte, se quisermos ver o esporte entrando em todas as casas, em todos os lugares, como sonha a atleta campeã olímpica, é anterior vermos a educação penetrando, também pela primeira vez, por todos os poros dessa nação. Oxalá esta seja a vez de a educação deixar de fazer-se objeto de hipocrisias dessa elite comezinha! Do contrário tudo não passará de um grande torneio ufanista que passará, deixando-nos mais uma vez depauperados frente às divulgações de IDHs e outros índices a nos envergonharem.

Frederico Lisbôa Romão é doutor

em ciências sociais pela

Universidade de Campinas (fredericoromao@uol.com.br).

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