Educação em mesa de bar


José de Jesus Santos1

Dentre tantos trabalhadores que labutam no seu dia-a-dia existe mais um que anonimamente nos serve e que deveria receber nossa atenção. Muitas vezes esse profissional esconde seus problemas e sempre é levado a viver sob o jargão “Deve atender sempre sorrindo!”. Na maior serenidade vemos esse ator em qualquer turno sempre disposto a servir nossos caprichos, ouvindo piadinhas ou até mesmo ser o ouvinte do “bebum, que ficou chato por está carente e com toda razão”. Um churrasquinho, por favor! Traga mais uma!! Ei garçom!…Assim chamamos este trabalhador para nos servir aquele petisco, refeição ou a cervejinha bem gelada.

Ei, fiuiiiii garçom! Assim o invocamos ignorando seu nome, sua história de vida – só queremos ser servidos! E na hora de ir embora: Ei, fiuiiii garçom a conta! E lá vem ele com a nota que até às vezes questionamos de sua honestidade e pagamos um percentual “de agrado” como à gorjeta. Há bares, pizzarias, restaurantes que a cobram, outros não, e sinceramente quantas vezes preferimos um lugar que não cobre essa gorjeta… Afinal o dono do bar que pague (alguns assim certamente pensam).

Quantas vezes nas mesas – não de bares, mas em escrivaninhas sob o ar condicionado outro trabalhador também é tratado não pelo nome, mas pelo oficio – que até fora do seu ambiente este lhe é tomado como nome de nascimento. Ei professor! Cuidado você ta reprovando muito! Professor você facilita demais nas provas! Professor eu sei que você está doente, mas pode vir assim mesmo. Dê um jeitinho de comparecer viu?

Ignorada também, a história de vida deste é registrada no anonimato e seu reconhecimento só é visto se o mesmo não formar para reconstruir, mas enformar as crianças ao sistema sendo passivo e seu direito de expressão cassado. Esse profissional é convidado sempre a servir e também sabe que “deve sorrir sempre, afinal, o cliente tem sempre razão”.

Há bares que cobram ou não gorjeta, ficando ao mero desejo do consumidor dar essa gratificação a quem lhe serve. Há cidades que o Piso Salarial é tratado como mero desejo do gestor quando a categoria não faz valer a luta por seus direitos. Polemizar não é o intuito, mesmo que cada profissão tem seu sistema remunerativo de valorização. E comparar uma lei federal a uma gorjeta aqui, eu sei, é no mínimo absurdo.

As denúncias não atingem mais o cansado trabalhador brasileiro que é exposto a noticiários ruins (e analises políticas de interesse burguês) e a novelas que direcionam uma vida totalmente longe de sua realidade. Diariamente assistimos hipnotizados a campanhas milionárias para salvar as fundações e os atos da iniciativa privada, diariamente concordamos com os intervalos e notícias de que tudo que é do serviço público vai mal (inclusive a educação) e a salvação está nos projetos que atores, fora da realidade, ensinam conforme o roteiro da peça decorado a perfeição do Ensino no Brasil.

Nos bares parisienses e ingleses (tabernas) oitocentistas as ideias – mesmo sobre a ameaça de ter um espião – eram analisadas e até atos postos em práticas. Hermes Fontes, poeta boquinense, costumava freqüentar os Saraus do Rio de Janeiro acompanhado de outras grandes mentes como o Rui Barbosa. Os saraus eram pontos de encontro da intelectualidade em vários lugares do Brasil, neles artistas, poetas, escritores, filósofos colocavam suas concepções e cosmovisão da sociedade. Atualmente a educação está virando assunto de mesa de bar, restaurante, palanques, programas de TV, nas ruas, e caindo no senso comum, todos opinam e todos têm razão.

Ei fiuiiii garçom!!! A conta!(eu sei que você merece gorjeta… mas…)

Putz! Alguém já perguntou a ele o que acha dessa história?

1 Professor da rede pública municipal de Boquim, licenciado em História pela FJAV, pós-graduando pelo INTA, delegado de base sindical/SINTESE em Boquim

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