Terreiros sofrem com preconceito e falta de políticas públicas

O manto de silêncio em torno das religiões de matriz africana em Sergipe guarda um mistério sobre o assunto. Quais são as casas de candomblé e umbanda de Sergipe? Quem são os babalorixás e as iyalorixás do Estado? Que tradições eles cultuam? O silêncio não responde essa pergunta. Mas esse mesmo silêncio deixa claro que existe medo ou receio dos filhos de santo de se apresentarem como tais em espaços públicos. Um medo que é ainda maior se for preciso fazer oferendas nas ruas, nos rios, ou numa praça. Trata-se de um medo de retaliação social direta, provocada por preconceito ignorante ou racista.

A iaô de Ogum, Lígia Borges, filha do Ilê Axé Oloya Tasé Tao, terreiro de matriz keto que há mais de 25 anos existe no Bairro Industrial, conta que já precisou se esconder para realizar oferendas, como se estivesse praticando algo ilícito. Isso seria uma prova de que o direito de culto nem sempre é respeitado. “Nos rituais de rua, no cemitério ou em locais públicos a gente tem que fazer tudo escondido, com medo de ser interrompido ou de sofrer alguma violência. Isso não está certo”, opina a filha de santo.

Lígia acredita que esta é uma característica sergipana que não existe em outros lugares como Rio de Janeiro. “O carioca pode fazer suas obrigações de maneira natural. Ninguém alega violação de túmulo e não há intromissão no nosso direito de culto. Se existem programas de televisão e emissoras de grupos religiosos, por que a gente não pode ter um programa de rádio para fazer tocar nossas músicas? Porque a gente é muito descriminado”, pergunta e responde a iaô de Ogum.

Como existem quase 300 casas de candomblé cadastradas e muitas clandestinas, estima-se que Sergipe possua aproximadamente 500 casas religiosas de cultos africanos. Boa parte delas são casas de matriz angola e muitas estão adotando práticas da cultura keto. A casa mais famosa de raiz nagô foi o terreiro da falecida mãe Bilina, em Laranjeiras.

Sustentando a tradição
A dificuldade de manutenção dos terreiros é outro ponto chave, seguido da problemática do preconceito. A própria estrutura da religião remonta à família africana, separada e segregada pelo tráfico negreiro. Por isso os pais e mães de santo acolhem seus numerosos filhos, dando a eles apoio e amor incondicional.

Além dos ensinamentos e mediação no contato com os orixás, os Babás e as Iyás não viram às costas para os que estão desempregados, que não tem habitação, ou estão abaixo da linha de pobreza. E assim acabam sobrecarregados para dar conta de uma enorme demanda social e religiosa. A professora e mãe de santo, Maria Angélica de Oliveira, acrescenta que muitos dos pais, mães e filhos de santo sofrem com anemia falciforme, por isso é importante criar maneiras de garantir a sustentabilidade das casas religiosas. “O terreiro é a casa de todos, e o pai de santo tem que dar condições para que seu filho caminhe”, resume Angélica.

A mãe de santo acredita que é preciso abrir os olhos para a necessidade de aproveitar as políticas públicas criadas para os terreiros pelo governo federal, antes que seja tarde demais. “A lei já está posta no papel e precisa ser posta em prática. Será que o próximo governo vai dar continuidade a essa política de apoio aos terreiros? Os problemas vivenciados são os mais diversos”, alerta.

Para Angélica, é importante trabalhar a revitalização dos terreiros e garantir a aposentadoria dos babalorixás e iyalorixás – que é um direito que assiste a outras religiões. Além das demandas mais ‘humanas’, o cuidado com o próprio meio ambiente é crucial porque a força dos orixás está na natureza.

fonte: agenciavoz.com.br

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